Não houve porrada, não voaram pedras, não ardeu um único caixote do lixo. Nem sequer um miserável episódio de vandalismo para oferecer aos profissionais da indignação os habituais quinze segundos de vídeo na televisão ou nas redes sociais. Assim torna-se complicado continuar a vender a história dos perigosos vândalos e arruaceiros.
Em vez disso, apareceu uma multidão. Famílias inteiras, crianças, jovens, velhos, trabalhadores, estudantes, cartazes improvisados e umas tendas que passeavam simbolicamente por cima das cabeças dos manifestantes. Cantaram, dançaram, protestaram e fizeram aquilo que, aparentemente, começa a incomodar muita gente, exerceram os seus direitos sem pedir desculpa por isso.E não estamos a falar de meia dúzia de pessoas. Fonte da polícia avançou com uma estimativa de 10 mil manifestantes.
Quem viu a praça em frente à Assembleia da República e as ruas adjacentes completamente cheias dificilmente ficará surpreendido se o número tiver chegado aos 15 mil ou mais ao longo da noite.
A contagem exacta não a sabemos, mas a dimensão daquela multidão estava à vista de todos.
Há, contudo, um pormenor que torna esta mobilização ainda mais significativa. Ontem era terça-feira. Não era sábado, domingo ou feriado. Era um dia normal de trabalho, com milhares de pessoas a saírem dos seus empregos para irem protestar e com a obrigação de se levantarem na manhã seguinte para voltarem a trabalhar.
Há, contudo, um pormenor que torna esta mobilização ainda mais significativa. Ontem era terça-feira. Não era sábado, domingo ou feriado. Era um dia normal de trabalho, com milhares de pessoas a saírem dos seus empregos para irem protestar e com a obrigação de se levantarem na manhã seguinte para voltarem a trabalhar.
É preciso algum descontentamento para abdicar das poucas horas de descanso que restam ao fim do dia e passá-las à porta da Assembleia da República.
Enquanto lá dentro se discutia o Orçamento do Estado, cá fora milhares de pessoas lembravam aos deputados que a habitação não é um luxo, que os salários não chegam para pagar as rendas e que o direito a uma casa não pode continuar a existir apenas no papel.
Mas o mais extraordinário foi mesmo o comportamento destes perigosíssimos arruaceiros. Depois de tantos discursos sobre violência, desordem e vandalismo, resolveram estragar a narrativa a toda a gente. Não destruíram património, não incendiaram contentores, não partiram montras. Limitaram-se a ocupar pacificamente o espaço público, cantar, dançar e exigir condições para viver com dignidade.
Que falta de consideração para com quem passou os últimos dias a tentar convencer o país de que estávamos perante uma perigosa ameaça à ordem pública.
Depois do Porto, foi a vez de Lisboa mostrar que a cidadania não se exerce apenas de quatro em quatro anos, numa cabine de voto. Também se exerce na rua, com a cara descoberta, de cabeça levantada e sem medo de exigir aquilo que a Constituição reconhece como um direito.
Parabéns a todos os que estiveram presentes. Ao Governo e aos habituais comentadores que confundem contestação com delinquência, fica uma imagem difícil de apagar, milhares de cidadãos a protestarem pacificamente diante da casa onde se fazem as leis.
Que chatice do caraças. Afinal, os perigosos vândalos e arruaceiros só querem condições mínimas para viver.
Isto ainda não acabou !
RiseUP Portugal
(Editado - Esquecemos o episódio em que um cidadão montou uma tenda, dormiu fora dela e foi retirado apenas de manhã pela Polícia Municipal.)
