19/05/2016

A democracia improvável e a banalidade da mentira

Os elevados níveis de abstenção eleitoral, aqui e noutros países europeus, devem-se à perda de confiança nos partidos que ocupam o centro do espectro político e que, ao longo das últimas décadas, se têm revelado incapazes de travar as consequências perniciosas e socialmente devastadoras da perda de soberania e das metástases da corrupção, banalizando-se o conúbio da política com os negócios. 

Pior ainda, os dois partidos da alternância têm-se revelado como um autêntico foco bacteriano, altamente permeáveis a interesses manifestamente contrários à defesa da propriedade social e dos bens comuns – incapazes, portanto, de melhorar objectivamente as condições de vida de todos os que mais necessitam de uma mudança.
 
À esquerda, porém (não falo do PS que, a despeito da sua herança, é um partido do centro), o fenómeno é ainda mais preocupante, pela permanência sempre renovada e conivente com a acumulação capitalista, dada na exigência de “crescimento” e pleno emprego. Qualquer pessoa com algum bom senso sociológico sabe que estas fantasias visam assegurar uma certa indiferença face à perpetuação do capitalismo, tornando-se supérfluas fracções cada vez mais alargadas da humanidade, devido à proliferação tecnológica e à lei da criação de valor; fantasias incapazes de romper com a desumanidade do neoliberalismo e que condicionam os seus fiéis a reivindicar o direito a serem explorados, subordinando-se alegremente à lógica da pleonexia: mais, mais, mais, cada vez mais (consumo, sobretudo). 

Hoje a servidão é voluntária e desejada. É isto, aliás, que une num mesmo e conveniente desígnio a esquerda e a direita: todos fazem bandeira política do tal “crescimento”, seja pela via austeritária (o que é sobremaneira estúpido) seja pela via neo-keynesiana. Por isso, a esquerda nunca chega a resultados susceptíveis de travar ou inverter este processo, apesar do muito bem-vindo aumento na sua votação. É preciso romper radicalmente com este discurso. Enquanto isso não acontecer, nada mudará. Os da alternância ganham sempre e os níveis de abstenção não sofrerão alterações significativas.

Acriticamente, assistimos hoje à emergência de uma nova ordem pós-democrática – ‘undoing the demos’, na expressão de Wendy Brown – na qual os interesses da finança transnacional se sobrepõem às necessidades da economia real, esvaziando a democracia e fazendo da política um mero instrumento de dominação destinado a assegurar a continuidade de um regime de acumulação cujas contradições estalam por todos os lados, destruindo o vínculo social e colonizando todas as esferas da nossa existência. 

A insustentabilidade deste credo que pretende legitimar a expropriação e o saque dos mais fracos, dissimula-se por meio da mentira, da manipulação e da inversão da causalidade – ou não estivéssemos nós perante «um radicalismo que não se importa de dar cabo de tudo» (Paulo Portas dixit) e cujos agentes não são, como é óbvio, aqueles em quem recai esta acusação torpe do líder do CDS-PP mas, ao contrário, aqueles que ele defende e que lançam repetidamente esta mesma acusação. Este método de guerrilha ontológica é, aliás, conhecido: acusa-se a vítima da responsabilidade pela sua própria desgraça, como nos massacres de Gaza – a conversa habitual, já banalizada sob a forma de espectáculo, de modo a passar despercebida: a culpa do trabalhador que empobreceu porque viveu acima das suas possibilidades, dos enfermeiros, dos professores e de todos os trabalhadores em funções públicas, apontados como uns “privilegiados” que não querem sair da sua zona de conforto, ou dos subsídios de desemprego reduzidos porque são “muito generosos”, etc. É a cegueira produzida pelas engenharias da visibilidade excessiva, um teatro de crueldade…
Proponho, assim, uma nova leitura da topologia do espectro político nacional, levando em consideração a inversão da realidade (pela mentira descarada tornada banal, perda de sentido moral e da decência, etc) e o decorrente estado de guerrilha ontológica da “nova normalidade” neoliberal – que reconfigura todos os domínios das nossas vidas segundo o modelo do mercado concorrencial: o extremismo e o radicalismo ideológico (travestidos de “neutralidade” liberal), ocupam agora o espaço do centrão, sobretudo o centro direita. Neste processo, o que sobrou de decência na democracia cristã, no socialismo e na social-democracia, distribui-se agora por vários pontos à esquerda (e, teoricamente, pelo menos, à direita) dos partidos da alternância, incluindo a esquerda (dita “radical” por preconceito ideológico) que defende hoje, realisticamente, um programa social-democrata e, também, pelos partidos emergentes da erosão e do descontentamento de todos estes anos de injustiça, fadiga fiscal, incapacidade para desmantelar as teias da corrupção instalada etc. 

Continuarei, portanto, a agoniar-me com os liberais das várias obediências que clamam nos media e em toda a parte contra o “radicalismo” – os mesmos extremistas que ilegalizaram a social-democracia e querem prosseguir a destruição do nosso débil Estado Social e inscrever na Constituição Portuguesa a “regra de ouro” do austeritarismo – o desastre extremista do liberalismo disfarçado de ciência económica…

Francisco Neto, Professor Universitário

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