10/10/2015

Um colar de miséria sobre os produtores de cacau

Oi pessoal! Vai um chocolatezinho? Uma barrinha de Mars, um delicioso Nestlé que se derrete na boca, ou um daquele negro e amargo, que cura angustias? E se for pela tardinha, de um dia de frio e chuvoso, uma grande chávena de cacau quente? Delicioso, amargo e doce, manjar dos deuses!!

Tal pitéu, deveria ser fonte de prazer e felicidade, para todos aqueles que estejam de qualquer modo a ele ligados. Mas na origem dessa delícia negra existe uma história negra de exploração, miséria, trabalho infantil e até escravatura humana. 



Uma surpreendente reportagem. Em 2014, uma equipa de reportagem holandesa deslocou-se à Costa do Marfim, para entrevistar pequenos agricultores ligados à produção de cacau. Com eles levaram chocolates produzidos no Ocidente, com o objectivo de os dar a saborear, àqueles que tinham produzido o cacau, com que eles eram feitos. Reunidos. Foi dado um quadradinho a cada um, para provar, e foi-lhes perguntado se sabiam o que aquilo era. Extraordinariamente ou não, nenhum sabia. Mas que era delicioso era. Não, não havia de ser. Mas o maior espanto, cresceu entre eles, quando lhes foi dito que aqueles quadradinhos deliciosos, eram feitos com as sementes que eles laboriosamente extraiam dos seus cacauzeiros, e que ensacados viajavam para longe, tão longe, que eles não lhe sabiam o destino. Perplexos, quase descrentes, maravilhados e deliciados, com os quadradinhos que na boca os extasiavam. Só visto.




A produção de cacau exige condições de calor e humidade específicas que só existem em alguns países tropicais. Exige também mão-de-obra e cuidados intensivos, de modo a que se consiga produção de qualidade. O principal produtor mundial é a Costa do Marfim, estando boa parte da sua população legada ao seu cultivo. Mas existem bastantes outros países a produzir cacau, pelo que a diversidade da oferta é relativamente e elevada. Pequenos agricultores, com as suas famílias, muitas vezes recorrendo a trabalho infantil, e segundo alguns relatórios também utilizando mão-de-obra infantil escrava, asseguram a produção, vivendo estritamente no limiar da sobrevivência. Não admira pois desconhecerem em absoluto, o sabor do produto final oriundo do que produzem. 


O rendimento de um dia desses agricultores ronda os 7 euros, certamente suficientes para comer uma “fuba”, mas insuficientes para almejar adquirir uma barra de delícia negra importada, quando está em causa a sobrevivência básica dos seus. Pois o preço desta, alavancado exponencialmente, pelo fabrico, especulação e taxas que lhe estão associadas, está muita acima dos seus horizontes. 


Mas fatidicamente é assim, pois o sistema económico assim o impõe. Um quilograma de cacau é pago ao produtor por 2,5 euros; com esse quilo de matéria-prima essencial consegue-se produzir quarenta barras de chocolate, claro que adicionando-se-lhe outros elementos como o leite. E  cada uma poderá custar no Ocidente os mesmos 2,5 euros. Parecido com isto, só o milagre dos pães de Jesus Cristo. 


Está à vista que se trata de um caso tipo, entre tantos que sucedem nos segundos e terceiro mundos, de cartelização e de imposição de um preço baixo de referência aos produtores. Em que se encontra aprisionado todo o sistema de produção agrícola do cacau e os respectivos países produtores. Meia dúzia de empresas multinacionais, de que se destaca a suiça Barry Callebaut, dominam o circuito de comercialização do cacau em semente e do seu processamento em manteiga de cacau e pó de cacau. Como trabalham em cartel têm a possibilidade de impôr os preços de aquisição mínimos. Não podem oferecer menos, senão os agricultores deixavam de produzir; não lhes convêm oferecer mais, pois baixariam os lucros e os dividendos tão caros aos seus accionistas. Os próprios Estados onde é produzido o cacau, não podem subir taxas com pena de o cartel retaliar. 


A Cargill, outra multinacional ligada a este cartel, pretendia construir uma fábrica na Costa do Marfim de transformação das sementes de cacau; o governo do país alvitrou a imposição de uma taxa de exportação sobre a manteiga de cacau produzida, que certamente seria bastante profícua como receita, uma vez que a cotação no mercado internacional é muito maior do que a matéria-prima de origem, as sementes de cacau. Imediatamente, o projecto foi deslocalizado para a Indonésia. 


Por aqui se vê, a imposição que existe, sobre os povos e países produtores, não só de preços de referência reduzidos, que permitem apenas a sobrevivência básica das populações, como também de taxas de exportação baixas, por parte das multinacionais, que controlam a comercialização. E está claro, que caso, algum país produtor pretendesse substituir-se-lhes a nível internacional, no processamento e comércio das sementes de cacau e produtos relacionados, sofreria um boicote por parte das empresas multinacionais ligadas ao fabrico de chocolataria, que também estão integradas e ligadas entre si por participações accionistas. Um muro de exploração.


E no outro lado, naquele que consome, os preços praticados, são de caracter semi-monopolista; maximiza-se o lucro, levando em conta a maximização do consumo; apesar de existirem muitas empresas chocolateiras, quem impõe o preço serão as multinacionais como a Nestlé. Estas obtêm os melhores preços na aquisição das matérias-primas, dadas as quantidades adquiridas; mas também o conseguem, à custa das ligações privilegiadas que possuem com os produtores de manteiga de cacau. 


Alguém se admirará, que os agricultores pobres da Costa do Marfim, não conheçam o sabor do chocolate? E que muitos, cansados da miséria embarquem em longas viagens emigrantes, rumo aos países, ditos de ricos? E porque é que, é impossível aos países subdesenvolvidos fugirem do anátema da pobreza?


por Octavio Serrano para o RiseUp Portugal

em baixo deixamos um documentário premeado do jornalista dinamarquês, Miki Mistrati, legendado em português, onde investiga informações relacionadas com trabalho escravo infantil nestas plantações de cacau.



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