29/09/2015

Os investimentos só se fazem se trouxerem lucros avultados ao sistema financeiro

Os “teóricos” neoliberais afirmam que o dinheiro não deve ter fronteiras; que desse modo, ele circulará à vontade com a possibilidade de financiar e promover desenvolvimento em qualquer canto do Mundo. 
Mais um conto de vigário, areia para os olhos do cidadão comum! Pois na prática real, a movimentação de capitais no Mundo, não é feita no interesse das populações, mas sim no interesse da especulação desenfreada, ou obedecendo a interesses políticos mal esclarecidos.
É que quando esse “desenvolvimento” se realiza, ele caminha sempre de algum modo colado à especulação; à pior, à que procura a mais-valia mais alta, o juro mais atraente, o rapinar mais seguro. Assim o investimento, não acompanha a necessidade das pessoas, das populações, do Mundo, mas sim e sempre, o retorno financeiro maximizado; o que provoca uma disparidade, entre as reais necessidades de desenvolvimento, e o modo concentrado, em determinados locais ou indústrias, onde ele é efectuado. 
E deste modo, nem a difusão tecnológica se faz de um modo mais proveitoso, nem o Mundo na sua globalidade tem uma evolução simultânea. Os países, os povos, os continentes evoluem a velocidades diferentes, de tal modo que as disparidades económicas e sociais se aprofundam e as pressões migratórias cada vez são maiores.

E a perversidade de tudo isto, fica patente quando existem por exemplo na mesma zona, investimentos fabulosos em infraestruturas, por exemplo de exploração de petróleo, e ao lado vegetam na miséria e na maior insalubridade milhões de pessoas. Fiquemos com um exemplo, que nos faça compreender e constatar como verdade, este “desenvolvimento” mal estruturado e distribuído, feito de acordo com o oportunismo financeiro. A especulação acompanha o desenvolvimento, e este só se realiza se satisfizer devidamente a necessidade de lucro.
Vejamos o vector relacionado com as relações comerciais globalistas entre os produtores asiáticos e os consumidores ocidentais; além do preço-hora próximo do limiar de sobrevivência dos operários-produtores; do preço monopolista imposto aos consumidores; necessita de investimentos que tornem mais rentável e barato o transporte desses produtos via marítima.
É nesse sentido, que nos aparecem investimentos feitos recentemente, como a construção de navios super-contentores, a construção de um segundo canal paralelo no canal do Suez, o alargamento do Canal do Panamá, ou a nível doméstico e de mais reduzido investimento a construção de um terminal porta-contentores em Sines. Serão investimentos louváveis e admiráveis, no seu feito e amplitude. Mas o que se constata na realidade, é que eles servem em primeiríssimo lugar, para proporcionar lucro ao sistema; não são construídos para servir as necessidades directas de povos e populações. E nesse processo de investimento e de exploração comercial, será o sistema global financeiro em conjunção com as elites locais que irá aproveitar.
Comecemos pelo princípio. A Coreia do Sul, é sede de grandes conglomerados económicos; um deles é a Hyundai; dedica-se á produção de, entre muitos produtos, também de novos navios. Esta empresa, por funcionar com características de oligopólio, tem capacidade concorrencial acrescida, e se necessário utiliza do dumping para se impôr, e afastar concorrência. Cotada nas bolsas de valores, é uma empresa cuja capitalização bolsista faz parte dos investimentos financeiros, da banca de investimento mundial. É pois natural que tenha acesso a crédito bancário favorável por parte do sistema financeiro. É assim que se constroem os grandes estaleiros, que permitem construir grandes super-contentores. Cujo financiamento é facilitado por serem construídos nos estaleiros, que no fundo são propriedade do sistema. Logo aqui nesta fase o sistema financeiro ganha no financiamento da construção dos estaleiros, na construção dos super-navios e com a especulação bolsista das empresas envolvidas.
Continuemos. Com a construção destes super-navios, onde passam a localizar-se os maiores escolhos à navegação? Precisamente nos canais onde os navios são forçados a passar para evitar longas travessias transatlânticas em torno de continentes. Canal do Suez e Canal do Panamá. Logo este problema tem de se resolver, e os interesses vão pressionar nesse sentido. Não se interessam por construir canais, mas estão interessados em emprestar dinheiro, para que alguém o faça. Precisamente aos Estados do Egipto e ao Panamá.
O que quer dizer, que quem se responsabiliza pelo pagamento dos empréstimos e respectivos juros serão os povos egípcios e panamenses. As companhias de navegação, proprietárias dos navios e controladas pelos interesses financeiros, só têm de utilizar os canais aos preços necessários e suficientes para garantir a sua manutenção. Entretanto neste processo, os interesses financeiros continuam a lucrar, agora não só com a cobrança de juros aos povos que construíram os canais, como também com a rentabilidade acrescida auferida pelas companhias proprietárias dos navios, como indirectamente com os lucros acrescidos das margens poupadas nos preços dos transportes.
Se alguém me afirmar que não são investimentos importantes. Terei de desmentir, efectivamente são-no. Agora convenha-se, que só são executados pela simples razão de que os grandes interesses financeiros globalistas têm interesse fundamental neles. E ganham muito dinheiro com eles. Se não ganhassem, nunca os financiariam. E as elites dos países envolvidos também lucrarão substancialmente.
Existem por esse mundo, muitos investimentos, que se executados contribuiriam decisivamente para o progresso e desenvolvimento dos povos e não são realizados. Porquê? Pela simples razão de que não há interesse financeiro associado.