14/12/2016

“LEVAR PORTUGAL A SÉRIO”

Eu vi algures uma imagem, que presumo ter sido tirada na sede do PSD e onde, mesmo por trás de um sorridente Passos Coelho, está estampada na parede a frase em epígrafe. Um “slogan”, portanto.

Não é que eu tenha ficado loucamente admirado por tanto carinho pátrio, e seriedade também mas, observando ele a rir-se alheado da frase, é porque dela não se apercebeu e nem sabia às tantas que lá estava e, não a levando ele a sério, é porque ela será mesmo para não levar a sério!

É que é corriqueiro, e de já há longos anos, o PSD presentear-nos com frases como esta como lemas ou “slogans” de campanhas e onde, exacerbando o seu nacionalismo pátrio, se pretendiam confundir com Portugal ou que as pessoas (votantes) o fizessem neles votando e, em vez de falar dos Portugueses, falam de Portugal como um todo a eles reduzido ou consubstanciado. E isso até resultou, principalmente quando o Cavaco ganhou aquelas já distantes maiorias absolutas.

E nessa altura foi o “Pra Frente Portugal”, depois qualquer coisa como “Primeiro Portugal”, ainda o “Mudar Portugal” e, nas últimas eleições o “Acima de Tudo Portugal”, “slogan” este que na altura me fez escrever um texto a que chamei “Portugal, o que é Portugal?” e cujo link aqui deixo para que o possam consultar, se o entenderem, sendo que aconselho a que primeiro respirem fundo: http://wp.me/p4c5So-vP

Mas dou por mim a notar agora, com este “pregão” ou “slogan”, uma evolução de pensamento, uma inequívoca actualização pois, por muito que ainda lá apareça o “Portugal”, ao contrário dos anteriores em que o “Portugal” aparecia sempre em último lugar, como a última palavra, neste já não, neste já não é a última! A última é “Levar a sério”!

E eu levo isto a sério e afirmo que têm toda a razão, porquanto é isso mesmo! Analisaram bem a coisa e deram a volta à mesma. Assim, continuando “eles” a serem Portugal, como para “eles” sempre foi e deveria continuar a ser, assumem que têm que ser levados a sério! Devem ter começado a ler jornais, a ouvir notícias, a ler Blogs, a ouvir o pessoal da rua, os fóruns da TSF e da Antena 1 e a conclusão foi que…Não estavam a ser levados a sério ou à séria!  Há aqui, portanto, como que uma introspecção retroactiva ou assim como o assumir de uma ambiguidade que resulta no convencimento de que colocar “Portugal” no fim da frase já não dá, já não pega.

É que se voltassem ao mesmo e dissessem, por exemplo, “Levar a sério Portugal”, toda a gente se riria a bandeiras despregadas. Se voltassem ao “Prá Frente Portugal”, por exemplo também, todos logo perguntaríamos: mas para onde? Em direcção a Castela? Em direcção ao Mar? Galiza acima? Em direcção a Marrocos? Seria demasiado deprimente, sem dúvida. “Mudar Portugal”? Também logo perguntaríamos: para onde? E “Em Primeiro Portugal”? A pergunta imediata também seria óbvia: Na fome? Na pobreza? Na dívida? Nos direitos laborais? E etc?

Do “Acima de Tudo Portugal” eu já escrevi e até copiei o Link, de modo que resta este “Levar Portugal a Sério”! A sério mesmo? Isto sou eu a perguntar…

É que se este “slogan” ou “pregão lá escarrapachado na sede é um lema é porque é, simultaneamente, um convite! Um convite a que levem o Partido a sério, porque o Partido, como já bem expliquei, se confunde com Portugal, como continuam a pensar. De modo que, se convidam ou lembram os militantes que devem levar o Partido a sério, a conclusão também é mais que óbvia: Não o têm levado!

Preclaríssimo Pedro: eu não lhe vou agora lembrar, porque seria demasiado fastidioso, nem enumerar tudo aquilo em que Você e os seus tanto se esforçaram para não levar desta coisa que se chama Portugal a sério. Não vou. E não vou porque teria que falar do Gaspar, da Marilu, do sistema financeiro, da saída limpa, dos despachos à pressa e sem poderes, da falta de controlo, dos encobrimentos reiterados, dos lesados do BES (onde está o peditório que disse seria o primeiro a subscrever?), da Tap, do Metro, da Carris, dos Swaps que nos vão rebentar nos dedos e piores que castanhas…e tudo o resto que ainda falta. Vou poupá-lo a isso.

Pois sabe: é aqui que a “bota não bate com a perdigota”! E finalmente, pois até eu pensava que não chegava lá…A Sério!

A sério Pedro! Sem qualquer acrimónia : Até eu gostava de vos levar a sério. A Sério!

por Joaquim Vassalo Abreu
em À Esquerda do Zero

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