10/09/2026

O mito da Europa governada pela Esquerda

Há uma ideia bastante cómica que se instalou com uma facilidade admirável no debate político: a Europa anda a ser governada pela esquerda. Repete-se em discursos, debates e caixas de comentários com aquela segurança tranquila das verdades que funcionam bastante melhor enquanto ninguém se lembra de as verificar. 

O problema começa precisamente aí, quando alguém comete a afronta de olhar para quem tem ocupado os principais cargos europeus nas últimas décadas. É um hábito desagradável, este de estragar certezas com nomes, datas e resultados eleitorais.

Comecemos pela Comissão Europeia. Desde 2004, foi presidida sucessivamente por José Manuel Durão Barroso, Jean-Claude Juncker e Ursula von der Leyen. Os três pertencem à família política do Partido Popular Europeu, o PPE, a grande força democrata-cristã e de centro-direita da União Europeia. São mais de vinte anos consecutivos de presidência da Comissão nas mãos da mesma família política. 

A acreditar na versão de uma Europa dominada pela esquerda, estaremos perante uma operação de infiltração de uma subtileza verdadeiramente magistral: para controlar Bruxelas, a esquerda começou por entregar a sua principal instituição executiva ao centro-direita e, para não levantar suspeitas, deixou-o lá durante mais de duas décadas. Há planos maquiavélicos, mas este exige um talento especial para desaparecer da fotografia enquanto se ocupa o poder.

No Parlamento Europeu, os números também não mostram grande vontade de colaborar. O PPE tornou-se o maior grupo parlamentar nas eleições de 1999 e nunca mais perdeu essa posição, vencendo sucessivamente em 2004, 2009, 2014, 2019 e 2024. Antes de 1999, eram precisamente os socialistas que ocupavam o primeiro lugar. Ou seja, durante mais de um quarto de século, a maior força do Parlamento Europeu tem sido uma família de centro-direita. É uma base curiosa para sustentar a ideia de que a Europa tem sido conduzida politicamente pela esquerda, mas talvez os resultados eleitorais tenham passado a ser uma questão meramente ornamental.

As eleições de 2024 obrigaram essa tese a exercícios ainda mais interessantes. O PPE elegeu 188 deputados, contra 136 dos Socialistas e Democratas. Os Patriotas pela Europa ficaram com 84, os Conservadores e Reformistas com 78 e a Europa das Nações Soberanas com 25. O grupo parlamentar chamado literalmente The Left, numa rara gentileza da realidade para quem tenha dificuldades em localizar a esquerda, ficou com 46 deputados em 720, enquanto os Verdes elegeram 53.

Podemos, aliás, fazer uma concessão bastante generosa e colocar automaticamente os 136 deputados do S&D na coluna da esquerda. Convém apenas perceber o tamanho da oferta. Chamar hoje “esquerda”, sem mais, a toda a social-democracia europeia exige uma memória política bastante curta. Ao longo das últimas décadas, uma parte considerável desses partidos aceitou ou promoveu privatizações, liberalizações, flexibilização das relações laborais, disciplina orçamental apertada, abertura de sectores públicos à concorrência, independência dos bancos centrais e uma arquitectura económica europeia assente no mercado único, na livre circulação de capitais e em fortes limitações à intervenção económica dos Estados. Em vários casos, aplicaram políticas que, algumas décadas antes, seriam identificadas sem grande discussão como liberais ou de centro-direita.

Tony Blair deu-lhe o nome elegante de Terceira Via, Gerhard Schröder deixou como herança as reformas Hartz e, por toda a Europa, partidos socialistas e sociais-democratas foram aproximando a sua política económica do centro liberal enquanto mantinham posições mais progressistas em matérias sociais e de costumes. Isto não os transforma automaticamente em partidos de direita, naturalmente, mas também torna bastante infantil o raciocínio segundo o qual basta encontrar a palavra “socialista” no nome para concluir que estamos perante esquerda no sentido histórico do termo. A social-democracia europeia mudou profundamente. Em boa parte dela, identificá-la hoje com a esquerda económica tradicional exige ignorar os últimos quarenta anos de transformação política.

Mas facilitemos a vida à teoria. Façamos de conta que nada disso aconteceu, coloquemos todo o S&D na esquerda e juntemos-lhe Verdes e The Left. Chegamos a 235 deputados, cerca de um terço do Parlamento. Portanto, mesmo depois de oferecermos uma definição suficientemente elástica para nela caber toda a social-democracia europeia contemporânea, continuamos com o pequeno problema de lhe faltarem quase duas centenas de deputados para uma maioria. Pelos vistos, dominar uma instituição deixou também de exigir qualquer coisa parecida com dominá-la.

Talvez o verdadeiro controlo esteja então escondido nos governos nacionais, que compõem o Conselho Europeu. Também aqui os números revelam uma irritante resistência em colaborar. Em 2009, 44% dos chefes de Estado ou de Governo pertenciam ao PPE e 26% à família socialista europeia; em 2014, a relação era de 43% para 32%; e, em 2019, o PPE representava 29%, os liberais outros 29% e os socialistas 25%. O próprio Serviço de Estudos do Parlamento Europeu descreve o PPE como a força claramente dominante no Conselho Europeu em 2009 e 2014. E repare-se que continuamos, por generosidade metodológica, a contar como “esquerda” todos os governos socialistas e sociais-democratas, independentemente das políticas económicas que efectivamente praticavam. Nem assim as contas chegam onde a tese precisa que cheguem.

Em Junho de 2026, depois de tantos anos de alegado domínio progressista, seria legítimo esperar encontrar finalmente o Conselho Europeu tomado por forças de esquerda. A realidade resolveu novamente ser pouco colaborante. Dos 27 membros com direito de voto, 12 estavam ligados ao PPE, quatro à família liberal, três ao PES, dois aos Conservadores e Reformistas, um aos Patriotas pela Europa e cinco eram independentes ou não afiliados. Ou seja, a família socialista tinha três representantes e o PPE doze. Uma Europa governada pela esquerda numa relação de quatro para um a favor do centro-direita é certamente possível, mas obriga a uma pequena actualização do vocabulário político. Nada de dramático: depois de se alterar o significado de “esquerda”, adaptar também o verbo “governar” é apenas uma questão de consistência.

Resta António Costa, presidente do Conselho Europeu desde Dezembro de 2024, frequentemente apresentado como mais uma prova do domínio socialista sobre Bruxelas. Há apenas um pormenor institucional desagradável: o presidente do Conselho Europeu não governa os 27 Estados-membros. Preside às reuniões dos respectivos chefes de Estado ou de Governo, procura construir consensos e representa politicamente o Conselho. Antes de Costa, o cargo foi ocupado por Herman Van Rompuy e Donald Tusk, ambos ligados ao PPE, e por Charles Michel, liberal. Transformar a presidência de António Costa numa demonstração de que a Europa é governada pela esquerda exige, portanto, atribuir-lhe um poder que o próprio cargo não tem: o de transformar, pela simples ocupação da presidência, os governos sentados à sua volta em governos de outra família política. Seria uma capacidade notável. Aparentemente, vem incluída no cargo, embora os tratados se tenham esquecido de a mencionar.

Nada disto significa, evidentemente, que a esquerda nunca tenha governado na Europa, presidido a instituições europeias ou influenciado profundamente as suas políticas. Jacques Delors, socialista francês, presidiu à Comissão entre 1985 e 1995, os socialistas foram durante vários períodos a maior força no Parlamento Europeu e numerosos governos nacionais foram liderados por partidos socialistas ou sociais-democratas. Mas também aqui convém evitar uma pequena fraude histórica: um partido continuar a chamar-se socialista ou social-democrata não significa que as suas políticas tenham permanecido imóveis desde os anos 70. A social-democracia europeia do pós-guerra, associada à expansão do Estado social, ao reforço do poder sindical, à tributação progressiva, à propriedade pública de sectores estratégicos e a uma intervenção económica robusta do Estado, não é a mesma social-democracia que, décadas depois, privatizou empresas, liberalizou mercados, flexibilizou relações laborais e aceitou grande parte do enquadramento económico anteriormente defendido pelos liberais e pela direita moderada. A diferença não é exactamente um detalhe de rodapé.

A persistência desta ideia torna-se mais compreensível quando se percebe que, para muita gente, “esquerda” deixou entretanto de designar uma posição política com limites minimamente reconhecíveis e passou a funcionar como uma gaveta onde cabe praticamente tudo aquilo de que se discorda. Regulação ambiental tornou-se esquerda, direitos laborais são esquerda, protecção do consumidor é esquerda, políticas de acolhimento de refugiados são esquerda e direitos LGBT são esquerda. Com o entusiasmo necessário, até uma directiva que obrigue uma empresa a explicar correctamente aquilo que vende pode acabar promovida a manifestação de marxismo cultural. É um método intelectualmente muito cómodo porque dispensa a maçadora tarefa de distinguir socialistas, sociais-democratas, liberais, democratas-cristãos e conservadores. Empurra-se todo o espectro político alguns metros numa direcção e, a certa altura, Angela Merkel começa a parecer Rosa Luxemburgo. A partir daí, demonstrar que a Europa foi governada pela esquerda torna-se uma tarefa francamente simples: basta decidir previamente que quase toda a gente é de esquerda.

É assim que se chega ao prodígio de uma União Europeia em que o centro-direita preside à Comissão há mais de vinte anos, o PPE é o maior grupo do Parlamento Europeu desde 1999 e, em 2026, tem quatro vezes mais representantes no Conselho Europeu do que a família socialista, mas que continua a ser apresentada por tanta gente como uma Europa governada pela esquerda. E isto depois de termos oferecido à tese todas as vantagens possíveis, incluindo contar automaticamente como esquerda partidos social-democratas que passaram décadas a privatizar, liberalizar, flexibilizar mercados e adoptar uma parte considerável das ideias económicas que a esquerda histórica combatia. 

A vantagem desta construção é quase perfeita: permite olhar para quem ganhou eleições, ocupou cargos e liderou instituições durante décadas e concluir, com absoluta serenidade, que quem verdadeiramente mandava eram os outros. É uma maneira particularmente confortável de interpretar a política europeia: os lugares são perfeitamente visíveis, os votos também, mas o poder, por algum mistério, está sempre nas mãos de quem aparece menos vezes em ambos.

RiseUP Portugal

09/09/2026

Sistema VOLTA - O que é a SDR Portugal

A SDR Portugal, uma associação sem fins lucrativos, é apresentada como uma das grandes conquistas da nova economia circular. Uma solução moderna, sustentável e inevitável para aumentar as taxas de reciclagem e aproximar Portugal dos objectivos ambientais europeus. A narrativa pública é simples, eficaz e cuidadosamente construída: devolver embalagens para salvar o planeta.


Consumir continua perfeitamente aceitável. Desde que a culpa venha com código de barras e seja colocada na máquina correcta.

O presidente da SDR Portugal é Leonardo Bandeira de Melo Mathias, antigo Secretário de Estado Adjunto e da Economia no governo de Pedro Passos Coelho. Um dos vice-presidentes é António Augusto dos Santos Casanova Pinto, vice-presidente do Conselho de Administração da Sumol Compal Marcas e administrador executivo do grupo.

Segundo o Relatório e Contas de 2024 da própria SDR, os órgãos sociais não são remunerados. No entanto, os gastos com remunerações em 2024 ascenderam a €136.333,25 antes de impostos (Seg. Social + IRS). O número de pessoas ao serviço em 31 de Dezembro de 2024 era de apenas 3, sendo referido no relatório que existia um Director-Geral contratado desde Junho de 2022 e que apenas em Dezembro de 2024 foram contratados um Director de Operações e um Director de Tecnologias de Informação.


Ou seja, durante praticamente todo o exercício de 2024, o grosso dos encargos salariais esteve concentrado numa única pessoa e com um valor (€9.738 ilíquidos /mês) bastante interessante para uma estrutura ainda em fase inicial de operação.

Afinal, até a reciclagem moderna exige a sua pequena aristocracia técnica.

O próprio Relatório e Contas revela ainda outro detalhe particularmente curioso: existe um conjunto de grandes empresas que realizaram empréstimos à SDR, os quais, segundo o Relatório de Gestão, serão pagos “quando a associação tiver meios financeiros para o fazer”.

Traduzindo do dialecto institucional para português corrente: o dinheiro há-de voltar. Ou seja, não se trata propriamente de capital a fundo perdido nem de um gesto puramente filantrópico. Trata-se de dinheiro que deverá regressar futuramente a quem o colocou no sistema.

Entre os credores encontram-se:

Auchan Retail Portugal, S.A.: €247.000
ITMP Alimentar, S.A.: €247.000
Super Bock Bebidas, S.A.: €247.000
Pingo Doce - Distribuição Alimentar, S.A.: €247.000
Lidl & Companhia: €247.000
Modelo Continente Hipermercados, S.A.: €247.000
Sumol Compal Marcas, S.A.: €247.000
Coca-Cola Europacific Partners Unipessoal, Lda: €247.000
SCC - Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, S.A.: €247.000
Unilever Fima, Lda: €247.000

Total: €2.470.000

A pergunta verdadeiramente interessante não é se o sistema é ecológico. É perceber como, quando e através de que mecanismos financeiros estes valores serão recuperados. Porque num sistema financiado por depósitos, taxas, fluxos operacionais e receitas futuras associadas à reciclagem, alguém acabará inevitavelmente por pagar a factura final da virtude ambiental.

No entanto, quando se observa o modelo para além da superfície publicitária e das campanhas institucionais, percebe-se que talvez estejamos perante algo bastante mais complexo do que uma simples iniciativa ecológica.

O que está a ser criado não é apenas um sistema de reciclagem. É uma infraestrutura económica, logística e tecnológica de enorme dimensão, construída em torno da circulação permanente de embalagens, depósitos, dados e contratos.

A lógica do mecanismo parece inocente. O consumidor compra uma bebida, paga um valor adicional associado à embalagem e recupera esse montante caso a devolva num ponto autorizado. À primeira vista, trata-se apenas de um incentivo comportamental. Uma pequena penalização temporária destinada a ensinar adultos a colocar recipientes vazios no sítio correcto. Mas é precisamente aqui que o modelo se torna interessante. O sistema não vive apenas da reciclagem.Vive sobretudo da arquitectura financeira criada à volta da reciclagem.

Cada embalagem deixa de ser apenas um recipiente descartável e transforma-se numa unidade económica rastreável:

- alguém paga
- alguém recolhe
- alguém valida
- alguém transporta
- alguém processa
- alguém monitoriza
- alguém factura

A garrafa já não termina no lixo. Passa a circular dentro de uma cadeia económica cuidadosamente organizada, onde praticamente cada etapa gera actividade financeira.

O primeiro aspecto raramente explicado de forma transparente é a importância dos depósitos não reclamados. Nem todas as pessoas irão devolver embalagens. Nem todas terão tempo. Nem todas terão máquinas próximas. Nem todas guardarão garrafas em casa. Nem todas considerarão justificável deslocar-se por alguns cêntimos. Nem todas transformarão a cozinha numa extensão informal do centro de triagem nacional.

E é precisamente aí que surge uma das peças mais relevantes do sistema. Os depósitos pagos e nunca recuperados permanecem dentro do circuito financeiro da estrutura. Ou seja, uma parte significativa da sustentabilidade económica do modelo assenta não apenas na reciclagem, mas também na inevitável imperfeição humana.

E aqui vale a pena pegar nas próprias palavras do presidente da SDR Portugal:

“Só para lhe dar um enquadramento, são consumidas em Portugal 2,1 mil milhões de garrafas de plástico (PET) até três litros. E as latas de aço e de alumínio, portanto, são 2,1 mil milhões de unidades por ano. Agora imagine…”

Sim, vamos então imaginar.

Com optimismo ambiental, admitamos que 70% das embalagens são devolvidas. Isso significa que 30% ficam fora do circuito de retorno.

2,1 mil milhões × 30% = 630 milhões de embalagens não devolvidas.
Multiplicando por um depósito de 10 cêntimos:
630 milhões × €0,10 = €63 milhões.

Ou seja, mesmo num cenário bastante optimista, estariam potencialmente 63 milhões de euros anuais a permanecer dentro do sistema apenas através de depósitos não reclamados.

Agora abandonemos por momentos o optimismo institucional e ambiental. Se a taxa de retorno fosse de 50%, então metade das embalagens não regressaria:

2,1 mil milhões × 50% = 1.050 milhões de embalagens.
Multiplicando novamente pelos 10 cêntimos:
1.050 milhões × €0,10 = €105 milhões.

Cento e cinco milhões de euros.

Naturalmente, estes valores não representam lucro directo líquido nem podem ser analisados isoladamente dos custos operacionais do sistema. Mas ajudam a perceber a dimensão financeira potencial criada por um mecanismo que depende precisamente de uma percentagem significativa de embalagens nunca ser devolvida.

Há aqui uma ironia difícil de ignorar. O sistema apresenta-se como solução para mudar comportamentos, mas beneficia financeiramente do facto de esses comportamentos nunca mudarem completamente. Se os consumidores devolvessem rigorosamente todas as embalagens, uma das maiores almofadas financeiras do mecanismo desapareceria. Isso obrigaria inevitavelmente a:
- aumentar taxas
- reforçar contribuições da indústria
- procurar mais financiamento público
- ou criar novas formas de receita

Por outras palavras, o sucesso ambiental absoluto poderia transformar-se num problema económico bastante menos sustentável do que os folhetos institucionais sugerem. Naturalmente, esta parte raramente aparece nos vídeos promocionais acompanhados por folhas verdes ao vento, crianças sorridentes e música suficientemente inspiradora para absolver moralmente uma garrafa de plástico. Mas os depósitos não reclamados são apenas uma componente do ecossistema.

Outra dimensão do modelo surge quando se observa a infraestrutura criada à sua volta.

Para operacionalizar a devolução de milhões de embalagens, torna-se necessário construir uma rede nacional composta por:

- máquinas automáticas de recolha
- software de reconhecimento e validação
- sistemas antifraude
- logística reversa
- transporte especializado
- centros de triagem
- compactação industrial
- plataformas digitais
- manutenção técnica
- monitorização estatística
- auditorias
- certificações ambientais
- contratos operacionais

Ou seja, cria-se um novo sector económico completo em torno de algo que, até aqui, cabia essencialmente num ecoponto. E como acontece frequentemente na economia contemporânea, o discurso público concentra-se na moralidade ambiental, enquanto os fluxos financeiros reais se distribuem silenciosamente pelos bastidores tecnológicos e logísticos.

Porque alguém fabrica as máquinas. Alguém fornece o software. Alguém gere os dados. Alguém assegura manutenção. Alguém opera a logística. Alguém ganha contratos. Alguém presta consultoria. Alguém vende a solução para o problema que o próprio sistema ajudou a transformar numa nova necessidade estrutural. O operador central pode apresentar-se como entidade sem fins lucrativos, o que é tecnicamente verdadeiro. Mas isso pouco diz sobre o volume de actividade económica gerada à volta da estrutura.

Aliás, um dos traços mais sofisticados dos modelos contemporâneos é precisamente este: o núcleo institucional mantém uma aparência neutra e moralmente virtuosa, enquanto a rentabilidade se espalha discretamente pelas camadas periféricas do sistema.

Existe ainda uma dimensão menos visível, mas potencialmente mais valiosa a longo prazo: os dados.

Cada devolução gera informação. Cada máquina recolhe padrões de utilização. Cada localização produz métricas comportamentais. Cada embalagem contribui para mapear hábitos de consumo. Num contexto onde indicadores ambientais, métricas ESG* e monitorização de comportamento possuem valor económico crescente, o controlo de uma infraestrutura nacional deste tipo representa muito mais do que reciclagem. Representa capacidade de observação, recolha, análise e venda de dados. (*Indicadores quantitativos e qualitativos que medem o desempenho de uma empresa nas áreas Ambiental, Social e de Gestão)

Quem gere um sistema desta escala passa a ter acesso a:

- padrões de consumo
- volumes regionais
- sazonalidade de vendas
- participação dos consumidores
- fluxos logísticos
-métricas ambientais
- indicadores de conformidade regulatória

O lixo deixa de ser apenas lixo. Torna-se informação.

Outro aspecto particularmente curioso é a transferência parcial de trabalho da indústria para o cidadão. Antes, o consumidor colocava a embalagem no ecoponto e encerrava aí a sua participação. Agora, espera-se que:

- guarde embalagens em casa sem as danificar
- organize resíduos
- transporte recipientes
- procure máquinas disponíveis
- aguarde validação
- execute parte da logística operacional

Tudo isto naturalmente apresentado como exercício de cidadania ambiental. Na prática, parte do trabalho anteriormente absorvido pelo sistema tradicional de resíduos é silenciosamente transferido para o próprio consumidor, que continua simultaneamente a financiar o processo através dos depósitos pagos.

Entretanto, os grandes produtores de embalagens conseguem algo ainda mais relevante: legitimidade. As empresas responsáveis pela colocação de milhões de embalagens descartáveis no mercado passam a operar dentro de uma arquitectura verde certificada, compatível com exigências regulatórias europeias e extremamente útil para relatórios ESG, reputação corporativa e marketing institucional.

A questão deixa então de ser: “como reduzir embalagens descartáveis?” E passa subtilmente a ser:“como integrar embalagens descartáveis num circuito economicamente rentável e ambientalmente legitimado?”

É uma diferença conceptual importante.

O sistema não elimina o consumo massivo de recipientes descartáveis. Pelo contrário: reorganiza-o, profissionaliza-o e transforma-o numa cadeia económica ainda mais sofisticada.

No fundo, o que está a emergir não é apenas um mecanismo de reciclagem. É a monetização integral da embalagem desde o momento da compra até ao momento da devolução.

A embalagem gera receita quando é vendida. Gera receita quando circula. Gera receita quando não é devolvida.Gera receita quando é devolvida. Gera receita quando é processada. Gera receita enquanto dado estatístico. E gera legitimidade política e ambiental durante todo o percurso.

Nada disto significa que reciclar seja inútil ou que a reutilização de materiais não tenha benefícios reais. O problema não está na reciclagem. Está na forma quase religiosa como certos modelos económicos são apresentados como altruísmo ambiental puro, quando na realidade envolvem estruturas financeiras altamente sofisticadas e interesses económicos evidentes.

Porque quando uma solução ecológica cria uma indústria multimilionária sustentada por depósitos, contratos, dados, logística, tecnologia e falhas previsíveis do comportamento humano, talvez seja legítimo perguntar se o principal objectivo é proteger o ambiente… ou descobrir como transformar até o lixo numa fonte permanente de rentabilidade.

E nesse aspecto, convenhamos, o modelo é brilhante.

RiseUP Portugal

Quem são os verdadeiros subsidio dependentes?

O Mito da Subsidiodependência:

Quem São os Verdadeiros Dependentes do Estado?

O debate público em Portugal é ciclicamente inundado por uma narrativa moralista: a ideia de que o país está paralisado por uma suposta "subsidiodependência" das franjas mais vulneráveis da população. Estigmatizam-se os beneficiários do Rendimento Social de Inserção (RSI) ou do abono de família como se fossem um fardo financeiro insustentável.

Contudo, uma análise fria aos números oficiais do Orçamento do Estado revela que a verdadeira dependência de subsídios não mora nos bairros sociais, mas sim nos conselhos de administração dos grandes grupos económicos.


A Ilusão dos Números: Onde Gasta o Estado?

Os dados do próprio infográfico orçamental destroem qualquer preconceito ideológico através da matemática pura: O "Custo" da Pobreza: Os apoios sociais não contributivos (que incluem as pensões sociais, abono de família e as prestações de inclusão/RSI) representam uma média anual de 3,7 mil milhões de euros (apenas 0,7% do PIB).

O "Custo" do Capital: Do outro lado da balança, os benefícios fiscais e apoios diretos ao capital (empresas, investidores e o setor financeiro/imobiliário) ascendem a uma média anual de 19,4 mil milhões de euros (3,6% do PIB).

O Estado português canaliza 5,3 vezes mais recursos públicos para aliviar e injetar capital em estruturas corporativas do que para resgatar cidadãos da pobreza extrema. Enquanto o apoio social às famílias é tratado com escrutínio milimétrico, as borlas fiscais e os resgates ao grande capital operam sob o rótulo de "estímulos ao investimento".

Casos Chocantes: O Socialismo para os Ricos

Se a subsidiodependência significa viver à custa do dinheiro dos contribuintes, Portugal acumulou nas últimas décadas exemplos claros onde os prejuízos privados foram socializados, transformando grandes grupos económicos nos maiores beneficiários de assistência social do país.

1. A Concentração dos Benefícios Fiscais

Enquanto o cidadão comum enfrenta uma das cargas fiscais sobre o trabalho mais elevadas da Europa, os dados divulgados pela Autoridade Tributária revelam uma assimetria gritante: apenas 20 grandes grupos empresariais (focados sobretudo em setores de grande faturação como o automóvel) absorvem cerca de 16,5% de todo o bolo de benefícios fiscais concedidos em IRC pelo Estado. Isto significa que mais de 500 milhões de euros deixam de entrar nos cofres públicos para beneficiar uma elite corporativa hiperconcentrada.

2. O Escândalo da Parceria Público-Privada e os Resgates Rodoviários

As Parcerias Público-Privadas (PPP) rodoviárias servem frequentemente como o exemplo perfeito de transferência de risco do privado para o público. Mesmo em anos de crises económicas em que o tráfego automóvel colapsou, cláusulas contratuais blindadas forçaram o Estado a pagar centenas de milhões de euros anuais em "compensações financeiras" a consórcios construtores para garantir as suas margens de lucro líquido estimadas. É o capitalismo sem risco: o lucro é privado, mas a garantia de receita é pública.

3. Os Resgates Bancários e o Fundo de Resolução

O exemplo mais devastador da dependência corporativa foi a fatura deixada pelo setor bancário. O caso do Novo Banco e o mecanismo de capitalização contingente acionado através do Fundo de Resolução injetou milhares de milhões de euros públicos para cobrir imparidades e ativos tóxicos da instituição. O dinheiro canalizado para tapar buracos de má gestão bancária num único ano superou muitas vezes o orçamento anual acumulado com o RSI de todo o país.

Conclusão: Inverter a Narrativa

Rotular o mais pobre de "subsídio-dependente" é um truque de retórica política que serve para desviar as atenções do verdadeiro dreno de recursos públicos. Quem depende criticamente da intervenção, da proteção e da benevolência financeira do Estado não é a família que tenta sobreviver com um abono de subsistência. São os setores económicos que não sobrevivem sem a borla fiscal, o resgate público ou o contrato blindado com o erário público.

Está na hora de exigir ao topo o mesmo nível de transparência, justificação e rigor moral que historicamente se cobra à base da pirâmide social.

RiseUP Portugal 

THE BIBI FILES — Documentário Completo em Português

O documentário The Bibi Files, cuja exibição foi bloqueada em Israel, nasceu de uma fuga de informação sem precedentes que abalou os alicerces políticos do país.

Tudo começou quando um intermediário, cuja identidade permanece desconhecida, contactou jornalistas e realizadores através da aplicação Signal, alegando ter na sua posse gravações confidenciais dos interrogatórios policiais de Benjamin Netanyahu, da sua família e de várias figuras centrais dos processos de corrupção que envolvem o primeiro-ministro israelita. O material, enviado de forma encriptada e impossível de rastrear, revelou-se autêntico. O que continha era explosivo: dezenas de horas de interrogatórios e depoimentos oficiais provenientes de uma fuga inédita de informação do sistema judicial israelita.

Desde o início, Netanyahu e a sua equipa jurídica procuraram impedir que o documentário visse a luz do dia. Houve ameaças judiciais, tentativas de bloqueio da distribuição e forte pressão sobre produtores, jornalistas e plataformas de streaming. Parte da equipa acabou por prosseguir o trabalho fora de Israel, onde o filme pôde ser concluído e exibido.


O resultado é uma das obras documentais mais controversas e politicamente sensíveis da história recente de Israel. 

Baseado em gravações reais e inéditas, The Bibi Files acompanha os bastidores de uma das mais longas investigações de corrupção alguma vez conduzidas no país e oferece um raro olhar sobre os mecanismos do poder, as lealdades quebradas e as fissuras que se abriram no círculo mais próximo de Netanyahu.

As imagens, gravadas entre 2016 e 2018, mostram Benjamin Netanyahu, a esposa Sara, o filho Yair e vários aliados próximos a serem interrogados pela polícia em processos relacionados com suspeitas de suborno, fraude e abuso de confiança. O material chegou aos jornalistas através desse canal clandestino e acabou por constituir a espinha dorsal do documentário.

Entre os interrogados encontram-se algumas das figuras mais influentes da sociedade israelita: magnatas dos meios de comunicação, empresários de relevo, produtores de cinema e proprietários de grandes grupos económicos. É precisamente nas salas de interrogatório, despidas de qualquer encenação, que o documentário atinge os seus momentos mais impactantes. Confrontados com provas documentais, presentes de elevado valor e alegadas trocas de favores, vários dos envolvidos acabam por confirmar encontros, conversas e benefícios concedidos ao círculo de Netanyahu.

Entre as revelações mais marcantes surgem os luxuosos presentes recebidos pelo casal Netanyahu, incluindo charutos, champanhe, jóias e estadias em hotéis de luxo, alegadamente oferecidos em troca de acesso privilegiado e influência política. O documentário aborda igualmente as negociações entre Netanyahu e proprietários de órgãos de comunicação social, onde alegadamente foram discutidas alterações legislativas e regulatórias em troca de cobertura mediática favorável. Estes episódios estão no centro dos chamados Casos 1000, 2000 e 4000, que sustentam as acusações formais de corrupção apresentadas contra o primeiro-ministro.

O filme revela também aspectos do comportamento dos próprios protagonistas durante os interrogatórios. Netanyahu surge frequentemente cauteloso e evasivo, recorrendo repetidamente a respostas como "não me lembro" ou "não sei" perante questões concretas. Sara Netanyahu aparece em vários momentos visivelmente irritada, acusando os investigadores de parcialidade. Já Yair Netanyahu adopta uma postura combativa, alegando a existência de uma conspiração política e mediática contra o pai.

Embora a divulgação destas gravações seja ilegal em Israel, o documentário rapidamente ultrapassou fronteiras. As tentativas de impedir a sua exibição acabaram por aumentar a curiosidade pública e o interesse internacional. O filme adquiriu um estatuto quase mítico, tornando-se um dos documentos audiovisuais mais discutidos da política israelita contemporânea.

Mas The Bibi Files não é apenas um documentário sobre corrupção. É também um retrato do funcionamento do poder, da influência das elites políticas e económicas e da fragilidade das instituições quando confrontadas com líderes que concentram uma influência extraordinária durante décadas.

Ao longo das suas duas horas de duração, o filme desmonta a imagem do líder incontestável e apresenta um Netanyahu pressionado pelas investigações, confrontado por testemunhos de antigos aliados e obrigado a responder a um conjunto de acusações que continuam a marcar profundamente a vida política israelita.

Mais do que uma investigação criminal filmada, The Bibi Files é um documento sobre poder, lealdade, influência e responsabilidade política. Independentemente da posição de cada espectador sobre Netanyahu, o filme oferece um olhar raro sobre os bastidores de um dos processos mais importantes e controversos da história recente de Israel.
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The Bibi Files - (legendas PT-PT)
https://drive.google.com/.../1lu32mTivyces8xASwddtPxicpj.../

Publicado e legendado por Tozé Manuel
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