15/10/2026

Pensar sobre o uso legitimo da violência em Democracia

Pretendemos aqui pensar no seguinte:


• Será que passámos a aceitar que a dor e a violência física sejam transformadas em meros instrumentos de gestão administrativa?

• Estamos mesmo disponíveis para conceder a uma qualquer chefia policial, ou a um qualquer presidente de Câmara, a autoridade autocrática de aplicar penas corporais na rua, concordemos ou não com as razões do protesto?

• Se o cassetete passa a ser a sentença imediata para uma tenda de lona sem licença, qual será o corretivo físico para a próxima infração burocrática que cometermos no espaço público?

• Até que ponto permitiremos que o braço armado do Estado seja instrumentalizado como um serviço de limpeza estética, pago por todos nós, para esconder a miséria que a política não sabe resolver?

• Quando o sangue de 37 concidadãos feridos serve para lavar a imagem de uma praça, de um presidente de Câmara ou de um Governo, o que é que faliu primeiro: o ordenamento urbano ou a nossa própria dignidade democrática?

Na madrugada de 15 de Outubro, a Praça D. João I, no Porto, transformou-se no palco de uma das demonstrações mais cruas e violentas do braço armado do Estado na história recente da cidade.
Às três da manhã, quando a cobertura mediática tradicional já tinha desmobilizado e a cidade dormia, o Corpo de Intervenção da PSP avançou de bastonada em punho sobre a acampada pelo direito à habitação. O balanço final é dramático: 37 feridos, corpos agredidos no chão e bens atirados diretamente para o lixo.

Para além do choque visual e da violência das imagens que circulam nas redes sociais, importa parar para pensar friamente sobre o que aconteceu ali.

Qual foi o verdadeiro gatilho para este massacre de madrugada?
Que crime de sangue ou perigo iminente justificou o uso de toda aquela força bruta por parte da PSP?


O “Crime” em causa


Em qualquer democracia que se pretenda minimamente saudável, o emprego da violência policial é — ou devia ser — um último e dramático recurso. A força física e o cassetete só se justificam legal e moralmente perante uma ameaça iminente à integridade de terceiros ou dos próprios agentes. Serve para salvaguardar a vida humana de um mal maior. Não serve, nunca serviu e não pode servir como medida facilitadora de gestão urbana ou anestesia para o incómodo político.

Olhando para os factos, o que se passava na Praça D. João I não era um crime de risco. Não havia armas, não havia saques, não havia destruição de património. Havia cidadãos em resistência puramente passiva: corpos sentados ou deitados no chão, dando as mãos para proteger as suas tendas. A única "ilegalidade" em curso era formal e burocrática: o prolongamento de um protesto além das 00h30 (ao abrigo de um decreto-lei de 1974) e a montagem de lona em espaço público sem licença camarária.

Tratar uma contraordenação administrativa com violência física de choque não é manutenção da ordem. É a subversão do próprio Estado de Direito.

Punições Corporais e os antigos Pelourinhos em Portugal

Em Portugal, a Constituição retirou o corpo do cidadão do catálogo de punições legítimas do Estado. Já não temos chibatadas, trabalhos forçados ou humilhações físicas. Se alguém desobedece a uma ordem legal, o processo exige que a polícia identifique, detenha se necessário, e entregue o cidadão a um Juiz — o único com legítidade para aplicar um castigo.

No entanto, o que a PSP fez no Porto — e que infelizmente replica uma cultura instrucional antiga e perigosa — foi aplicar um castigo corporal imediato na rua.

Quando a agressão continua sobre manifestantes encurralados ou pessoas deitadas, o cassetete deixa de ser uma ferramenta de contenção e passa a ser uma sentença física instantânea. Um castigo corporal.

Este método faz lembrar os antigos pelourinhos medievais, onde o poder político local castigava fisicamente quem ousava desafiar a paz ou a estética da vila. Já vimos este filme antes, em contextos similares e também completamente diferentes: lembramo-nos de repente, e por exemplo, em maio de 2015, em Guimarães, quando um subcomissário da polícia decidiu aplicar um "enxerto de porrada” á bastonada a um cidadão em frente ao seu pai de 73 anos e aos seus dois filhos menores por meras contestações verbais à saída de um estádio de futebol (Vitória de Guimarães vs. SL Benfica). 

Lembramos que, neste caso, o subcomissário chega a guardar na cintura o cassetete normal e desembainha o extensível com ponta de metal, que é suposto usar apenas em situações de violência extrema.


Muitos outros exemplos existem. E a
 situação é diferente mas o padrão é o mesmo: perante a afronta à autoridade ou o incómodo visual, o agente veste a pele de juiz e carrasco no mesmo segundo, descarregando a força não porque é operacionalmente necessária, mas porque serve como corretivo pedagógico instantâneo. Não pode ser esse o seu papel.

E a desculpa técnica da "gestão de multidões" cai por terra na era digital. Se em eventos caóticos de massas a polícia sabe que fazer cargas cegas gera mais pânico do que soluções, e se hoje existem câmaras de alta definição, drones e meios para identificar e deter diferidamente qualquer real infrator no dia seguinte ou no fim do evento, a opção de carregar à bastonada sobre alvos fixos e pacíficos de madrugada revela uma escolha deliberada pela dor e pela intimidação coletiva.

O Mito da Impossibilidade Operacional

Compreende-se, num plano estritamente tático, a imensa complexidade que as forças de segurança enfrentam no policiamento de grandes massas, como eventos desportivos, concertos, eventos culturais, manifestações, desfiles, carnavais e por aí fora. Esforço que muito lhes agradecemos e sabemos que, sem ele, nenhum destes eventos seria possível ou seguro para todos.

E compreende-se também que, operacionalmente, se um indivíduo isolado arremessa um objeto contra a linha policial no meio de uma multidão em movimento, tentar "furar" essa barreira humana para efetuar uma detenção imediata acarreta riscos enormes. Os agentes expõem-se a ficar encurralados, perdem a vantagem numérica e arriscam-se a catalisar um motim generalizado ao gerarem pânico coletivo.

Nesses cenários complexos, a opção por conter a linha e diferir a captura para um momento mais seguro é uma decisão técnica compreensível.

No entanto, o drama é que nem este pretexto operacional se colocou na Praça D. João I. Ontem, no Porto, não havia uma multidão caótica em movimento, não havia arremesso de projéteis e o Corpo de Intervenção enfrentava um risco físico nulo. Os ativistas eram alvos estáticos, perfeitamente identificáveis e isolados na praça.

Se a polícia quisesse agir em conformidade com o Estado de Direito, bastaria identificar individualmente os infratores ou aguardar pela dispersão natural para aplicar as respetivas coimas administrativas. A opção de avançar em massa e esmagar corpos estendidos no chão de madrugada deita por terra qualquer desculpa de "necessidade tática". Foi uma escolha deliberada pela imposição do terror físico.

O Xerife de Nottingham e a Instrumentalização da Polícia

Esta violência ganha contornos ainda mais graves quando percebemos a quem ela serve. O presidente da Câmara Municipal do Porto, Pedro Duarte, do mesmo partido do Governo central (PSD), tinha avisado escassas horas antes que seria "absolutamente implacável" com as tendas.

O autarca assumiu a postura perfeita de um Xerife de Nottingham moderno: aquele que não resolve as causas da fome e da miséria do povo, mas aplica de forma cega e cruel as regras de expulsão para manter as "terras do rei" limpas e intocadas.


As tendas incomodavam a retórica de quem governa a cidade. Incomodava ver a crise da habitação — com rendas proibitivas e a expulsão sistemática dos portuenses — materializada em lona no coração do Porto. 

A polícia foi, assim, profundamente instrumentalizada: foi reduzida a um serviço de limpeza ideológica e estética por encomenda da autarquia, com o objetivo claro de calar vozes incómodas e varrer o fracasso das políticas habitacionais para debaixo do tapete antes que a cidade acordasse.


Um Guião que Não é Novo

Mas desengane-se quem pensa que isto é uma novidade. O guião é antigo e universal. Historicamente, quando o sistema socioeconómico falha em garantir os direitos mais básicos à população e o povo se organiza para ocupar o espaço público em protesto, a resposta do poder é sempre a mesma: criminaliza-se a forma do protesto através de burocracias, acusa-se os manifestantes de "provocadores" e aciona-se o braço armado para disciplinar os corpos através do medo.

Independentemente de se concordar ou não com o protesto ou mesmo com a sua forma, o que aconteceu no Porto abre um precedente perigosíssimo para todos nós.

Se aceitarmos que o critério de aceitação e normalização de 37 feridos passa a ser o nível de incómodo político que o seu protesto causa ao partido no poder, então a democracia deu um passo atrás.

A habitação é um direito constitucional. Lutar por ela não é crime. E o cassetete continuará a ser apenas o último argumento de quem já não tem qualquer argumento moral para defender o estado a que isto chegou.

RiseUP Portugal 


14/10/2026

Como sequestrar um país em 5 passos

Vamos fazer um pequeno exercício para ver se algo aqui nos é familiar ou já vimos ou estamos ver ser feito nalgum lado ou por alguém. 

1° PASSO

Descredibilizar, desacreditar e silenciar todos os meios e fontes de informação que se atrevam a contrariar a narrativa que se pretende impor. A verdade é um incómodo, sobretudo quando não serve os interesses de quem ambiciona o poder. O objetivo é simples: transformar a mentira em verdade, a propaganda em informação e a dúvida em arma. Quando ninguém já sabe em que acreditar, qualquer falsidade pode passar por verdade.

2° PASSO

Dividir a sociedade, alimentar ressentimentos e transformar adversários em inimigos. Não basta discordar: é preciso odiar. Desumanizar quem pensa de maneira diferente, até que a intolerância pareça uma virtude e a crueldade uma necessidade. 

Quando o outro deixa de ser visto como humano, os direitos humanos tornam-se um detalhe dispensável.

3° PASSO

Ridicularizar os intelectuais, desacreditar os especialistas e transformar o conhecimento numa ameaça. Afinal, para quê ouvir quem estudou, investigou e sabe do que fala, quando a ignorância pode ser promovida a opinião igualmente válida? 

Quanto menos as pessoas souberem, mais facilmente acreditarão naquilo que lhes mandarem acreditar. E quanto mais orgulhosas forem da própria ignorância, melhor.

Soa a algo familiar até agora?

4° PASSO

E este é indispensável. Eleger um candidato sob a promessa de restaurar a ordem, salvar a pátria e devolver o poder ao povo. Alguém suficientemente inteligente para parecer competente, suficientemente carismático para seduzir as massas e suficientemente manipulável para obedecer a quem realmente manda. O povo acredita que escolhe o seu salvador. Os verdadeiros donos do poder sabem que estão apenas a contratar um empregado.

5° PASSO

Não há um quinto passo.
Agora o país é teu.

09/10/2026

A Maricarmen que vá morrer longe

É exatamente isto que os fundos de investimento e os políticos sussurram ao ouvido de quem vive nas grandes cidades. Em Madrid, a velha expressão portuguesa deixou de ser uma força de expressão. Virou uma sentença de morte real.


Maricarmen Abascal tinha 87 anos e vivia na mesma casa desde a adolescência. Para o fundo imobiliário que comprou o prédio, a sua história de vida resumia-se a uma linha numa folha de Excel. A renda subiu de 500 para 2.650 euros — um valor que engolia mais do que o dobro da sua reforma. Como não podia pagar, a polícia arrombou-lhe a porta e tirou-a á força de casa numa maca. 

O corpo não aguentou o choque e a humilhação do exílio forçado. Morreu dias depois no hospital. Eu argumentaria que Maricarmen foi assassinada no dia que foi arrancada de casa.

Para os tecnocratas, isto são apenas "efeitos colaterais da macroeconomia". Para os governantes, são estatísticas discutidas em gabinetes frios, justificadas em nome do PIB e da atração de capital.

Nos corredores, nas reuniões por zoom, nas administrações, a habitação é um ativo financeiro. As Maricarmens todas de Madrid podem ir morrer longe.

Mas para nós, a habitação é a nossa vida, e a nossa vida é um assunto bem pessoal.

O que aconteceu em Madrid é o espelho exato do que acontece também nas maiores cidades portuguesas. Quando um idoso é corrido de um bairro histórico para dar lugar a mais um alojamento de luxo, ou quando um jovem percebe que a totalidade do seu salário mal chega para pagar um T1 na periferia, o ecossistema das cidades é destruído e as prioridades de uma sociedade que se diz em telejornais e debates televisivos como evoluída são completamente subvertidos

Está aí uma revolução cultural vinda das elites. As cidades estão a ser desenhadas para clientes, investidores, turistas e pseudo unicórnios, não para cidadãos. Quem não consegue acompanhar a inflação imobiliária é empurrado para além das margens, invisível. E tu, tal e qual a Maricarmen, que vás morrer longe.

Escondem-se também atrás da fraude estatística do "salário médio" para mascarar o abismo. O salário médio em Portugal (1.835 € brutos), é uma miragem inflacionada por gestores e quadros de topo; a realidade crua da esmagadora maioria é o salário mediano (1.000 € a 1.050 € brutos), colado ao salário mínimo nacional (920 € brutos). É com essa carteira vazia que as pessoas enfrentam um mercado demente, onde pedir 1.200 euros por mês por um apartamento com mais de 50 anos e meros 60 metros quadrados na periferia de Lisboa já não soa a estranho.

Regressámos ao feudalismo. O cidadão comum trabalha única e exclusivamente para pagar o feudo ao senhorio, ao investidor, ao fundo, ao raio que o parta, sem nunca ser dono de nada, condenado a uma subsistência que serve apenas para enriquecer terceiros. Quem não queira ou não possa, tal e qual a Maricarmen, que vá morrer longe.

Quem tenta fugir ao pesadelo do arrendamento e decide comprar casa própria cai exatamente na mesma armadilha. Compra-se tijolo a preço de ouro, numa sobrevalorização absurda alimentada pela especulação. E se a vida corre mal? Se os juros sobem ou o desemprego bate à porta? E a doença? O sistema já está desenhado: o único que é sempre salvo é o banco.

Os contribuintes portugueses gastaram mais de 30 mil milhões de euros de dinheiros públicos para resgatar e estabilizar a banca desde o início da crise financeira em 2008, aproximadamente 3.000 € por cada português residente em território nacional fosse adulto ou criança na altura. Estes foram os mesmos bancos que despejaram milhares de pessoas das suas casas. O banco fica com o imóvel, o fundo imobiliário absorve o património, e a família que lá habitava perde as poupanças de uma vida (se as tiver) e é atirada para a rua, e condenada à dívida e à pobreza. Essa família, tal como a Maricarmen… que vá morrer longe.

Para piorar, o cenário que se avizinha com as novas leis do arrendamento que querem aprovar é de puro terror social. Facilitar e simplificar os despejos e a subida de rendas parece ser a grande prioridade sem discutir o problema ou tomar medidas de fundo. Era bom que, do outro lado, também fosse mais fácil e simples pagar as rendas ao fim do mês. Mas não. A corda parte sempre do mesmo lado.

A hipocrisia é de tal ordem que, num país onde a maior parte da população urbana é asfixiada por rendas, prestações de crédito à habitação e juros, o próprio Estado considera que uma renda de 2.300 euros por mês goza de estatuto fiscal de "renda moderada" para quem a recebe. Este é o país onde dezenas de milhares de unidades habitacionais ficam vazias pelo Algarve e pela Costa Portuguesa. Não estamos a falar de apropriações. Estamos a apontar o que é um indicador claro das prioridades do país.

E tu? Tal e qual como a Maricarmen … vai morrer longe, bem longe dos centros urbanos remodelados para postal turístico. Aparece apenas para lhes servir os cafés, para lhes limpares as ruas, fazer a segurança deles, entregar-lhes a comida em casa, abrir-lhes a porta ou tirar a imperial fresquinha. De resto … Vai morrer longe.

Nem mais uma Maricarmen.
Nem em Madrid, nem em Portugal, nem em lado nenhum. 

RiseUp Portugal

05/10/2026

Documentário NAZA – O que vimos

Este documentário causou a raiva nos mais altos quadros políticos e militares israelitas e, depois de o vermos, percebemos exatamente porquê.

Baseado nos depoimentos anónimos de 24 oficiais e soldados dos próprios serviços de inteligência do país, o filme revela como a Inteligência Artificial e a vigilância em massa transformaram o assassinato de civis numa fria métrica de eficiência estatística.

1. O que quer dizer "NAZA"?

NAZA (Nezek Agavi) é o acrónimo militar em hebraico para "dano colateral". Trata-se da cota numérica que estipula quantos civis palestinianos a liderança militar aceita matar conscientemente para eliminar um único alvo. Ou seja, como o termo “dano colateral” popularizado pelos Estados Unidos faz, dizermos "NAZA 50" evita dizer 50 civis inocentes, 50 pessoas que só vão ali a passar, ou mesmo 50 crianças. "NAZA 50" é menos pessoal e nem parece crime de guerra.

As revelações destes operacionais israelitas demonstram que essas margens perderam qualquer senso de proporcionalidade exigido pelo direito internacional. Enquanto para militantes de baixo escalão a cota aceitável girava em torno de "20 NAZA" (até 20 civis mortos por um único alvo), o filme expõe que o comando militar autorizou tetos absurdos de "500 NAZA" para assassinar um único comandante sénior. Na prática, o exército assinou ordens de bombardeamento sabendo de antemão que estaria a dizimar o equivalente à população de uma pequena vila de inocentes para alcançar um único homem.


2. Morrer por sistema de pontos

A seleção desses alvos abandonou os métodos tradicionais de espionagem humana para adotar uma escala industrial através do Lavender, um software baseado em Inteligência Artificial. O Lavender monitoriza ativamente os dados de telecomunicações de toda a população de Gaza e atribui a cada indivíduo (neste caso, a cada telemóvel que a pessoa leva consigo) uma pontuação com base na probabilidade de pertencer ao Hamas.

Os critérios de pontuação operam numa lógica perigosa quando se está a falar em bombardear seres humanos numa zona de alta densidade populacional. Estar num grupo de WhatsApp que inclua um suspeito também identificado por este sistema, ter na sua agenda de números de telefone um determinado número de certa pessoa guardado, cruzar caminhos geograficamente com um alvo demarcado, passar numa rua a determinadas horas, ou algo tão simples descrito no filme como ir a uma determinada padaria, eleva a pontuação da pessoa. Uma vez atingido o limite estatístico da máquina (ter um determinado número de pontos), o indivíduo entrava numa lista automatizada de execução.

Os oficiais humanos que operavam o sistema funcionavam como meros carimbos de validação na aprovação do alvo, sem realizar qualquer verificação aprofundada dos dados brutos gerados pela IA.

3. UPS … Se calhar enganei-me …

O documentário joga luz sobre a perigosa ilusão de infalibilidade vendida pela tecnologia de guerra. Confiar que meta dados dos telemóveis definem quem é um combatente repete um erro metodológico trágico da história militar recente.

Há um paralelo histórico perfeito com as operações dos EUA no Afeganistão. Nos anos 2000, a inteligência americana descobriu que membros da Al-Qaeda utilizavam o relógio digital barato Casio F-91W para fabricar detonadores de bombas. 

Rapidamente, o exército norte-americano apontou a posse desse relógio — um dos modelos mais vendidos do planeta — como indicador de terrorismo. 

O resultado foi o sequestro, a venda por recompensas e a tortura em massa de dezenas de civis inocentes na prisão de Guantánamo pelo simples facto de usarem um relógio.

Em Gaza, ao automatizar os alvos com base em cartões SIM e padrões de rede — ignorando uma taxa de erro assumida pelos próprios responsáveis israelitas de 15% —, Israel repete a mesma falha estrutural, porém numa escala letal infinitamente maior.

4. "Where's Daddy?": Quando e onde atacar

Uma das passagens mais estarrecedoras de NAZA desconstrói categoricamente o argumento retórico oficial de que as baixas civis ocorrem porque o Hamas utiliza a população como "escudo humano".

Os depoimentos provam o exato oposto: a própria Inteligência das Forças de Defesa de Israel (IDF) estruturou um programa chamado "Where’s Daddy?" (Onde está o papá?) feito especificamente para identificar onde os alvos moram.

Utilizando a geolocalização nos telemóveis para mapear o local exato onde o telemóvel do suspeito permanece imóvel durante o horário de sono na maioria das ocasiões (ou seja … onde dorme à noite), o algoritmo pretende assim identificar a sua residência familiar. 

Esta informação permite perceber qual o local mais provável de um determinado alvo estar a uma determinada altura. 


Assim, os ataques residenciais noturnos tornaram-se a primeira opção militar por pura conveniência logística e económica.

Segundo os próprios operadores, algo como o facto de um dos telemóveis que estão em casa naquele momento mandar um simples SMS como “Mãe, o pai já chegou”, faz disparar o alarme.

Mais chocante ainda é o relato sensorial dos operadores: através das intercetações do áudio do telefone hackeado do alvo, ou seja, a ouvirem o alvo em casa, os elementos das equipas da inteligência relatam que escutavam em tempo real as vozes das mulheres na cozinha, o som da televisão ligada e o choro ou o riso de crianças na sala de estar antes de carregar no botão. 

E o bombardeamento ocorria sob plena consciência de que famílias inteiras seriam soterradas vivas. 

Numa das entrevistas um dos operadores revelou que nalguns casos, também chegou a ouvir depois do bombardeamento. Gritos, choros ou pedidos de ajuda.

5. Destruir edifícios esteja ou não lá gente

Por fim, o documentário detalha o funcionamento do sistema Habsora (The Gospel). (o nome deste sistema não é usado no próprio documentário, mas é descrito por vários artigos posteriores à estreia do filme e por isso sabemos o seu nome).

Este sistema é focado na destruição da infraestrutura urbana de Gaza e não em indivíduos, e opera com uma métrica de esvaziamento. Ou seja, o sistema valida o bombardeamento de edifícios se for determinado que uma certa percentagem dos seus moradores ou habituais ocupantes não se encontra lá. Segundo os próprios operadores israelitas, a todos os edifícios em Gaza foram atribuídos um número de código para facilitar a sua identificação.

Quando o alvo é um edifício e não um alvo humano, não falamos em NAZA 10, NAZA 20 ou NAZA 50. Aqui falamos em percentagens. Se o edifício chegar a um mínimo de 25% da sua habitual ocupação, a ordem é dada para o destruir. 

Assim, num edifício onde regularmente se encontrem 40 sinais de telemóvel, se forem detetados 10, bombardeia-se e destrói-se, independentemente de quem lá esteja, de se encontrar ou não um único alvo identificado no sistema explicado anteriormente, e independentemente de que tipo de edifício seja (talvez agora estejam melhor explicados os bombardeamentos a escolas, hospitais, etc). A regra funciona com edifícios de todo e qualquer tamanho, todo e qualquer número habituais ocupantes. Aqui o que conta é a percentagem.

Os próprios operadores entrevistados argumentam que essa destruição massiva de edifícios com base em dados de localização de telemóveis esconde uma tática deliberada de engenharia demográfica: tornar regiões inteiras de Gaza completamente inabitáveis.

Ao pulverizar bairros residenciais inteiros sob o pretexto de "limpar alvos", destrói-se o tecido urbano e as condições básicas de vida, garantindo estrategicamente que a população palestiniana deslocada nunca mais tenha lares para onde retornar.

É assim este, o exército mais moral do mundo segundo Benjamin Netanyahu, descrito pelos seus próprios operadores israelitas.

O cinema documental cumpre, historicamente, o papel de furar as bolhas da propaganda estatal em tempos de guerra. No entanto, poucos filmes na história recente carregam o peso demolidor de "NAZA", longa-metragem dirigida pelos jornalistas israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor. Ovacionado de pé por 25 minutos no Festival de Cinema de Veneza, onde conquistou o Prémio Especial do Júri, a obra gerou fúria imediata no escalão político de Israel, com ministros a classificar os autores como "traidores".

Este é um documentário difícil de ver, mas aconselhamo-lo vivamente e é um documento histórico. Está neste momento nos cinemas e os autores dizem que o vão colocar de forma gratuita na internet.

RiseUp Portugal



24/09/2026

Parceiros da Saúde Privada é que é bom

Numa publicação anterior falámos dos preços de inaladores nos Estados Unidos e na Europa.

Números numa tabela impressionam, mas continuam a ser números.
Agora vejamos como isto funciona quando há uma pessoa do outro lado.

Cole Schmidtknecht tinha 22 anos, vivia nos Estados Unidos e sofria de asma desde criança.

Usava diariamente o Advair Diskus para manter a doença controlada e, com o seguro de saúde, pagava menos de 70 dólares pelo medicamento. A 10 de Janeiro de 2024 foi à farmácia levantar o inalador, como fazia habitualmente. Só que entretanto o seu plano tinha deixado de o cobrir.

O preço que lhe apresentaram foi de 539,19 dólares. Cole não tinha esse dinheiro. Segundo a família, fez uma escolha que ninguém devia ter de fazer: pagou a renda e saiu da farmácia sem o inalador.
Tinha seguro de saúde. Tinha receita médica. Tinha uma doença diagnosticada e um tratamento que fazia há anos. Não lhe faltava responsabilidade nem vontade de se tratar.


Bastou uma alteração na lista de medicamentos cobertos pelo plano para aquilo que lhe custava menos de 70 dólares passar a custar 539.
Cinco dias depois sofreu uma crise de asma gravíssima. O colega de casa levou-o para o hospital, mas Cole chegou inconsciente e sem pulso. Foi reanimado, permaneceu seis dias ligado a um ventilador e nunca recuperou a consciência. Morreu a 21 de Janeiro de 2024. Tinha 22 anos. Cole teve uma escolha. A renda ou o medicamento que o ajudava a respirar. Escolheu a renda. Cinco dias depois entrou num hospital e nunca mais acordou.
É este tipo de casos que também tem de estar em cima da mesa quando se discute aproximar Portugal de modelos de saúde mais dependentes de seguros privados e de intermediários na compra de medicamentos. Não basta falar em “escolha”, “concorrência” e “mercado” como se estivéssemos a escolher uma operadora de telemóvel.

O Post anterior:

Em 2024, numa investigação da Comissão HELP do Senado norte-americano ao preço dos inaladores, apareceu este pequeno monumento às maravilhas do mercado: o Combivent Respimat, da Boehringer Ingelheim, custava 497 dólares nos Estados Unidos e 7 dólares em França. Não estamos a comparar medicamentos parecidos. É o mesmo inalador, do mesmo fabricante.

Claro que nem todos os americanos pagam os 497 dólares do próprio bolso. Há seguros, descontos e programas de apoio pelo meio. Mas o preço está lá. 

E é difícil explicar como é que um medicamento atravessa o Atlântico e fica dezenas de vezes mais caro sem começar a fazer perguntas incómodas sobre um sistema de saúde onde há demasiada gente a ganhar dinheiro entre quem fabrica o medicamento e quem precisa dele.

Na América é que é bom.

O Regabofe da Inauguração custou 175 mil euros

Há dois dias publicámos um texto sobre a inauguração da nova Escola Secundária de Cascais. Chamou-nos particularmente a atenção o espectáculo de uma escola pública e laica ser benzida por D. Rui Valério, Patriarca de Lisboa, perante o Presidente da República, o primeiro-ministro, o ministro da Educação e o presidente da Câmara. O Estado é laico, mas, pelos vistos, ninguém quis arriscar uma inauguração sem cobertura divina.


Nos comentários, algumas pessoas escreveram que a cerimónia tinha custado 200 mil euros. Fomos pesquisar no Portal BASE, onde encontrámos publicado o contrato celebrado pelo Município de Cascais para a concepção, produção e realização dos eventos da inauguração. E há uma correcção a fazer. Não foram 200 mil euros. Foram apenas 175.512,94 euros, com IVA. Menos 24 mil e uns trocos.

Retiramos, portanto, tudo o que pensámos sobre os 200 mil e passamos a pensar exactamente o mesmo sobre os 175 mil. O valor contratual publicado é de 142.693,45 euros sem IVA.


Convém também mencionar outra coisa. Os 175 mil euros não dizem respeito apenas à cerimónia oficial de 21 de Setembro. O contrato abrangeu dois eventos relacionados com a inauguração da escola: o Open Day de 5 de Setembro e a inauguração oficial. Feita a precisão, continuamos onde estávamos: 175.512,94 euros para assinalar a abertura de uma escola secundária. E podia ter sido pior. O preço-base do concurso era de 185.315,60 euros sem IVA, cerca de 228 mil com IVA. Vistas as coisas por este prisma, talvez ainda nos venham explicar que poupámos dinheiro.


O caderno de encargos ajuda a perceber como se chega a estes valores. Havia seis horas de DJ, três artistas, um coreógrafo, uma equipa de decoração, três ecrãs, um deles com 56 metros quadrados, uma passarela e seguranças para guardar o material durante a montagem e desmontagem. Não sabemos exactamente em que momento a inauguração de uma escola secundária passou a exigir uma produção desta natureza, mas aparentemente abrir os portões e mostrar as novas instalações já não produz o impacto mediático de outros tempos.

Há, aliás, um pormenor que torna tudo isto ainda mais requintado: as obras não estão sequer acabadas. Está concluída a primeira fase, que permitiu abrir a escola, mas falta a segunda, com a demolição das antigas instalações, o novo pavilhão desportivo e os arranjos exteriores. Ou seja, houve alguma contenção. Não se acabou a obra toda de uma vez. Na inauguração é que não convinha poupar nem atrasar.

E talvez seja essa a parte mais difícil de engolir. A Escola Secundária de Cascais esperou mais de 50 anos por instalações definitivas. Alunos, professores, funcionários e famílias passaram décadas numa escola que nascera provisória. Quando finalmente chegou o novo edifício, ainda incompleto, conseguiu-se arranjar 175.512,94 euros para dois eventos destinados a assinalar a sua abertura. Há uma espécie de talento administrativo nisto: esperar meio século pelo essencial e, quando ele finalmente chega, descobrir uma urgência extraordinária no acessório.

A explicação é o PRR. Para projectos desta dimensão é exigida uma actividade de comunicação com impacto mediático. O que se compreende. Quem financia uma obra pública tem todo o direito de exigir que se diga onde foi aplicado o dinheiro. O salto entre essa obrigação e seis horas de DJ, três artistas, um coreógrafo, uma passarela e um ecrã de 56 metros quadrados é que já exige capacidades intelectuais que não possuímos. O regulamento pede comunicação. A interpretação foi generosa.

Talvez seja uma nova disciplina do currículo: Educação Financeira Aplicada à Administração Pública. Primeira lição: uma escola pode ficar por acabar. A inauguração é que não pode ficar por festejar.