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11/09/2017

A classe dominante e a sua comunicação

"Os capitalistas e respectivos altos funcionários vão promover a consciência dos trabalhadores para a injustiça do sistema e defender que há alternativas às políticas que eles acham que servem os seus interesses? É muito provável que não. Adivinhem quem são os donos da maioria dos órgãos de comunicação social? Neste quadro podemos constatar que os defensores das políticas que favorecem a classe dominante estão em grande maioria no espaço mediático. Há sectores político-ideológicos hiper-representados. Como se isso não bastasse, há toda uma indústria de negatividade e distracções que desvia a atenção das pessoas. Os truques abundam."

Realizemos um breve exercício historiográfico para compreendermos o estado actual e a crescente desconfiança existente em relação à comunicação social dominante. 

Qualquer semelhança com a realidade histórica e com a actualidade não são meras coincidências: 

1. Imaginem o feudalismo, sistema socioeconómico que existiu na Europa durante a Idade Média, no qual havia duas classes principais: os senhores feudais e os servos. A servidão era uma relação de trabalho na qual o servo era obrigado a pagar rendas em géneros, serviços laborais e impostos ao senhor feudal. Os senhores apropriavam-se de uma parte significativa do que era produzido pelos servos para poderem sustentar o seu estilo de vida e realizar os seus objectivos. 

  1.1. Os senhores feudais ou o seu séquito próximo procuravam esclarecer os servos para a injustiça vigente e incentivavam-nos à desobediência? Teriam muitos deles sequer consciência da injustiça? Por exemplo, o Xerife de Nottingham comunicava aos servos do seu domínio que a acção do Robin dos Bosques era justa e que a vida na floresta de Sherwood era boa? É muito provável que não. As narrativas produzidas enobreciam os senhores feudais e denegriam os que não se submetiam ou combatiam a ordem vigente. As ameaças de punição e o poder das armas promoviam o medo nos servos.

2. Imaginem a escravatura, um sistema socioeconómico que existiu em diferentes períodos históricos e regiões do globo, que se baseia na existência de duas classes principiais: os escravos e os donos de escravos. Os escravos são propriedade e realizam a maioria do trabalho produtivo. O dono tem o direito de dirigir o trabalho do escravo e de propriedade sobre o produto do seu trabalho. Tem ainda o direito de propriedade sobre os descendentes do escravo e o direito de vender o escravo. 

  2.1. Os donos dos escravos e respectivos capatazes esclareciam os escravos sobre a injustiça e imoralidade da sua condição, incentivavam-nos a fugir ou diziam-lhes que caso fugissem podiam ter uma vida melhor? É muito provável que não. Os escravos eram ameaçados, convencidos que a sua situação não era assim tão má (podiam comer e apesar de pouco tinham onde dormir), sofriam punições constantes, eram perseguidos e provavelmente mortos caso se atrevessem a fugir. 

3. Analisem o capitalismo, sistema socioeconómico actualmente dominante à escala global, baseado na relação entre duas classes principais: os capitalistas e os trabalhadores. Os capitalistas apropriam-se e são proprietários dos meios de produção e contratam trabalho assalariado para produzir mercadorias com a intenção realizar lucro. Ficam com os lucros e tomam a maioria das decisões económicas. 

  3.1. Os capitalistas e respectivos altos funcionários vão promover a consciência dos trabalhadores para a injustiça do sistema e defender que há alternativas às políticas que eles acham que servem os seus interesses? É muito provável que não. Adivinhem quem são os donos da maioria dos órgãos de comunicação social? Neste quadro podemos constatar que os defensores das políticas que favorecem a classe dominante estão em grande maioria no espaço mediático. Há sectores político-ideológicos hiper-representados. Como se isso não bastasse, há toda uma indústria de negatividade e distracções que desvia a atenção das pessoas. Os truques abundam. 

4. O actual modelo de comunicação social está em crise a vários níveis. Uma democracia requer participação, debate plural e procura da verdade nos órgãos de comunicação social. Se queremos encontrar as melhores soluções e caminhos para a sociedade é fundamental que haja um jornalismo respeitado e respeitador da deontologia da profissão. Com profissionais com estabilidade e remuneração apropriada. O jornalismo é um serviço público. Por isso, necessitamos de um robusto e abrangente sector público de comunicação social. Um sector de referência de qualidade, devidamente financiado, onde a isenção, independência e pluralidade possam florescer. 

23/01/2017

Apenas 8 homens possuem a mesma riqueza que metade do mundo

“É obsceno que tanta riqueza esteja a ser mantida nas mãos de tão poucos, quando 1 em cada 10 pessoas sobrevive com menos de US$ 2 por dia. A desigualdade está a enclausurar centenas de milhões na pobreza; está a fracturar as nossas sociedades e a minar a democracia.”

O relatório da Oxfam, “Uma economia para os 99%“, mostra-nos que a diferença entre os ricos e pobres é muito maior do que era pensado. Nele, espelha-se como os grandes negócios e os super-ricos alimentam a crise da desigualdade com a:
  • Fuga aos impostos
  • Redução de
  • Uso dos seus poderes para influenciarem a política.
Ele exige uma mudança fundamental na maneira como gerenciamos nossas economias para que elas funcionem para todas as pessoas, e não apenas para alguns afortunados.

Os novos e melhores dados sobre a distribuição da riqueza global, em especial na Índia e na China, indicam que a metade mais pobre do mundo tem menos riqueza do que se pensava anteriormente. 

Se estes novos dados tivessem sido disponibilizados no ano passado, mostrariam que 9 bilionários possuíam a mesma riqueza que a metade mais pobre do planeta, e não 62, como a Oxfam calculou na época.

Winnie Byanyima, Directora Executiva da Oxfam International, disse:

“É obsceno que tanta riqueza esteja a ser mantida nas mãos de tão poucos, quando 1 em cada 10 pessoas sobrevive com menos de US$ 2 por dia. A desigualdade está a enclausurar centenas de milhões na pobreza; está a fracturar as nossas sociedades e a minar a democracia.”

“Por todo o mundo, as pessoas estão a ser deixadas para trás. Seus salários estão estagnados e os patrões das cooperações levam para casa milhões de dólares em bónus; os seus serviços de saúde e de educação são cortados enquanto as corporações e os super-ricos fogem aos impostos; as suas vozes são ignoradas enquanto os governos cantam a melodia dos grandes negócios e da elite rica.”

29/12/2016

The System is Broken - "O Sistema está Avariado"

Bem, o sistema está avariado e os economistas não nos conseguem tirar disto. 


Num artigo de final de ano, o biógrafo de John Maynard Keynes, o economista Lord Robert Skidelsky escreve "Sejamos honestos: hoje ninguém sabe o que está acontecer na economia mundial. A recuperação desde o colapso de 2008 foi inesperadamente lenta. Estamos no caminho para a saúde plena ou para um atolado de "estagnação secular"? A globalização vem ou vai? "

Ele prossegue: "Os decisores políticos não sabem o que hão fazer. Eles pressionam as alavancas usuais (e incomuns) e nada acontece. O Quantitative Easing (Injecção de dinheiro) deveria ter trazido a inflação de volta ao estimado. Não o fez. A Contracção Fiscal (Austeridade) deveria ter restaurado a confiança. Não o fez.


Skidelsky coloca a culpa disto sobre o estado da macroeconomia - ele lembra-nos a infame visita da Rainha
Isabel II à London School of Economics no auge da Grande Recessão, em 2008, quando ela perguntou a um grupo de eminentes economistas: Porque é que não viram isto a chegar? Eles responderam que não sabiam porque é que não sabiam!


Skidelsky continua para considerar as várias razões para o fracasso da economia dominante em ver a crise chegar ou agora para saber o que fazer com isso. Uma razão pode ser a concentração da educação económica em modelos irrealistas e fórmulas matemáticas, ao invés de compreender "o quadro completo". Ele considera que a economia se isolou do "entendimento comum de como as coisas funcionam ou devem funcionar". Esta análise segue a argumentada recentemente por Paul Romer, o novo economista-chefe do Banco Mundial, que, ao renunciar à academia, também atacou o estado da macroeconomia de hoje.


A segunda razão de Skidelsky é que a economia dominante considera a sociedade como uma máquina capaz de alcançar o equilíbrio entre a oferta e a procura, de forma que os "desvios do equilíbrio são "atritos", meras "lombas na estrada "; Os resultados são predeterminados e óptimos." O que isto não consegue reconhecer, diz Skidelsky, é que são seres humanos a operar um sistema económico e não podem ser ajustados num modelo ou numa máquina de equilíbrio. A matemática então entra no caminho do quadro geral com todas as suas imprevisibilidades e mudanças humanas. O que está errado com a economia, de acordo com Skidelsky, é que há uma falta de "educação ampla e de perspectivas". Os economistas precisam saber sobre coisas mais amplas na organização, no comportamento social e na história do desenvolvimento humano, não apenas dos modelos e fórmulas matemáticas.


Embora os argumentos de Skidelsky tenham mais do que um elemento de verdade, ele não explica realmente porque é que a economia dominante se tornou divorciada da realidade. Isto não é um erro de educação (económica) ou falta de conhecimento de ciências sociais mais amplas, como a psicologia; É o resultado deliberado da necessidade de se evitar encarar a realidade do capitalismo.

A "economia política" começou como uma análise da natureza do capitalismo numa base "objectiva" pelos grandes economistas clássicos Adam Smith, David Ricardo, James Mill e outros. Mas assim que o capitalismo se tornou o modo dominante de produção nas grandes economias, ficou claro que o capitalismo era outra forma de exploração do trabalho (desta vez pelo capital), então os economistas moveram-se rapidamente para negar esta realidade.

Em vez disso, a economia dominante tornou-se uma apologia para o capitalismo, com o equilíbrio geral substituindo a concorrência real; Utilidade Marginal substituindo a Teoria do Valor do Trabalho e a Lei de Say substituindo as crises.  (Lei dos Mercados de Say)



Como disse Marx sucintamente: "De uma vez por todas, posso afirmar aqui que, pela economia política clássica, compreendo que a economia desde o tempo de W. Petty investigou as relações reais de produção na sociedade burguesa, em contraposição à
economia vulgar, que trata apenas das aparências, reflecte sem cessar sobre os materiais desde há muito fornecidos pela economia científica, e lá procura as explicações mais plausíveis para os fenómenos mais absurdos, para o uso diário do burguês, mas para o resto, limita-se a sistematizar duma forma pedante e proclamando as verdades eternas, as ideias banais sustentadas pela burguesia auto-complacente em relação ao seu próprio mundo, para eles o melhor de todos os mundos possíveis ".



O que há de errado com a economia dominante não é (apenas) os economistas de hoje que são estreitamente matemáticos e focados em modelos económicos - não há nada inerentemente errado com o uso de matemática e modelos - ou que a maioria dos economistas não têm a "erudição mais ampla e talentos múltiplos" dos economistas clássicos do passado. É que a economia já não é "economia política", uma análise objectiva das leis do movimento do capitalismo, mas uma apologia para todas as "virtudes" do capitalismo.


O pressuposto desta economia é que o capitalismo é o único sistema viável de organização social humana que irá entregar os desejos e necessidades das pessoas. Não há alternativa. O capitalismo é eterno e funciona desde que não haja muita interferência nos mercados de forças externas como o governo ou de monopólios "excessivos". Ocasionalmente, a tarefa é controlar "choques" ao sistema (visão neoclássica) ou fazer intervenções para corrigir "problemas técnicos" na produção capitalista e na circulação (visão keynesiana). Mas o próprio sistema está bem.


Veja-se a reacção de Paul Krugman (Nobel Economia 2008) ao artigo de Skidelsky. O que irrita Krugman é a sugestão de Skidelsky de que a economia dominante considera que a Contracção Fiscal (Austeridade) era necessária para "restaurar a confiança" depois da Grande Recessão. Krugman, como moderno decano do keynesianismo, discorda do biógrafo de Keynes. A economia dominante, pelo menos a ala keynesiana, argumentava o contrário. Mais gastos do governo, e não menos, teriam tirado a economia capitalista da depressão. Isto é macroeconomia básica, diz Krugman.


Ele prossegue para reivindicar que a austeridade está "fortemente correlacionada com as recessões económicas". Na verdade, a evidência para essa afirmação é realmente bastante fraca, como mostrei em vários lugares no meu blog e em artigos (publicados e futuros). As grandes soluções keynesianas de dinheiro fácil, taxas de juros zero e gastos fiscais ficaram bem longe de dar um fim à depressão quando foram testados (e todos os três foram tentados no Japão).

Krugman, é claro, diz-nos que eles não foram tentados, pelo menos não o suficiente. Os políticos "recusaram-se a usar a política fiscal para promover empregos; Eles escolheram acreditar no conto de fadas da confiança para justificar os ataques ao estado de bem-estar, porque era isso o que queriam fazer. E sim, alguns economistas deram-lhes cobertura. Mas essa é uma história muito diferente da afirmação de que a economia não conseguiu oferecer orientação útil. Pelo contrário, ofereceu uma orientação extremamente útil, que os políticos, por razões políticas, optaram por ignorar ".


Na minha opinião, os decisores políticos podem ter optado por ignorar os gastos fiscais para resolver o "problema técnico" da Grande Depressão, em parte "por razões políticas". Mas há também boas razões económicas para argumentar que, numa economia capitalista, o aumento dos gastos do governo e os déficits orçamentais correntes não obterão uma recuperação económica se a rentabilidade do capital for baixa.



Skidelsky mencionou o outro grande ângulo morto da economia dominante: a alegação de que a livre circulação de bens e capital, a globalização, funciona para todos. Angus Deaton, vencedor do Prémio Nobel de Economia em 2015, é um defensor optimista da globalização. O livro de 2013 de Deaton, "The Great Escape", argumentou que o mundo em que vivemos hoje é mais saudável e mais rico do que teria sido, graças a séculos de integração económica.  Numa entrevista ao Financial Times, Deaton diz que "a globalização para mim não parece ser um dano de primeira ordem e acho muito difícil não pensar no bilião de pessoas que foram tiradas da pobreza como resultado".


Já discuti os argumentos de Deaton em artigos anteriores. Deaton representa tudo o que há de melhor na economia dominante, como ele olha para as grandes questões: globalização, robôs, desigualdade e saúde humana e felicidade. Ele está agora preocupado com a ameaça da participação dos robôs no trabalho, as crescentes desigualdades em relação à "busca para alugar" e a deterioração da saúde dos norte-americanos por causa do uso excessivo de drogas que as empresas farmacêuticas lhes aplicam. Ele reconhece que "a felicidade efectiva atingiu o pico assim que uma pessoa estava ganhar o equivalente a US $ 75.000 por ano."


Naturalmente, a maioria não ganhar sequer isso, como Deaton sabe. Mas ele continua confiante de que o capitalismo é o melhor sistema de organização social, já que tirou um bilião de pessoas "para fora da pobreza" nos últimos 250 anos. Assim, o capitalismo funciona, mesmo que os seus apologistas ignorem o seu funcionamento e não possam explicar quando não funciona.



O entrevistador do Financial Times deixou Deaton e voltou para seu carro. "Há um bilhete de estacionamento molhado e colado ao meu pára-brisas, uma multa de US $ 40. Eu sorrio. Eu também estou de volta ao conselho que Deaton ofereceu quando me sentei e mencionei o meu medo de depois ter uma multa. "Eu tenho certeza que você se pode livrar dela", disse o prémio Nobel. "Basta dizer-lhes que o sistema estava avariado."


Bem, o sistema está avariado e os economistas não nos conseguem tirar disto.


por Michael Roberts


RiseUP Portugal

27/12/2016

O Império do Consumo - por Eduardo Galeano


O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran da televisão. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa delinquindo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas para que outro mundo vamos mudar-nos?

A explosão do consumo no mundo actual faz mais ruído do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco: quem bebe por conta, emborracha-se o dobro. O carrossel aturde e confunde o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo soa muito, tal como o tambor, porque está vazia.

E na hora da verdade, quando o estrépito cessa e acaba a festa, o borracho acorda, só, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos partidos que deve pagar. A expansão da procura choca com as fronteiras que lhe impõe o mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam do ar, e ao mesmo tempo necessitam que andem pelo chão, como acontece, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.

O direito ao desperdício, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite. E as pessoas estão condenadas à insónia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar.

Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa se se considerar que os EUA têm apenas cinco por cento da população mundial.

"Gente infeliz os que vivem a comparar-se", lamenta uma mulher no bairro do Buceo, em Montevideu. A dor de já não ser, que outrora cantou o tango, abriu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. "Quando não tens nada, pensas que não vales nada", diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: "Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e suando em bica para pagar as prestações".

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde a quantidade com a qualidade, confunde a gordura com a boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a "obesidade severa" aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos.

Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou uns 40% nos últimos 16 anos, segundo a investigação recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, as diet food e os alimentos fat free tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar só sai do automóvel para trabalhar e ver televisão. Sentado perante o pequeno écran, passa quatro horas diárias a devorar comida de plástico.

Triunfa o lixo disfarçado de comida: esta indústria está a conquistar os paladares do mundo e a deixar em farrapos as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que vêem de longe, têm, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade, são um património colectivo que de algum modo está nos fogões de todos e não só na mesa dos ricos.

Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão a ser espezinhadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida à escala mundial, obra da McDonald's, Burger King e outras fábricas, viola com êxito o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

O campeonato mundial de futebol de 98 confirmou-nos, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola brinda eterna juventude e o menu do MacDonald's não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército de McDonald's dispara hambúrgueres às bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro.

O arco duplo desse M serviu de estandarte durante a recente conquista dos países do Leste da Europa. As filas diante do McDonald's de Moscovo, inaugurado em 1990 com fanfarras, simbolizaram a vitória do ocidente com tanta eloquência quanto o desmoronamento do Muro de Berlim.

Um sinal dos tempos: esta empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. A McDonald's viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera.

Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama a Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas em 98, outros empregados da McDonald's, numa pequena cidade próxima a Vancouver, alcançaram essa conquista, digna do Livro Guinness.

As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu o que o esperanto quis e não pôde. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos em publicidade duplicaram no mundo.

Graças a ela, as crianças pobres tomam cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite, e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor e o televisor tem a palavra.

Comprados a prazo, esse animalejo prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis último modelo, e pobres e ricos inteiram-se das vantajosas taxas de juro que este ou aquele banco oferece.

Os peritos sabem converter as mercadorias em conjuntos mágicos contra a solidão. As coisas têm atributos humanos: acariciam, acompanham, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o automóvel é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

As angústias enchem-se atulhando-se de coisas, ou sonhando fazê-lo. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas.

Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário. A publicidade não informa acerca do produto que vende, ou raras vezes o faz. Isso é o que menos importa.

A sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias: Em quem o senhor quer converter-se comprando esta loção de fazer a barba? O criminólogo Anthony Platt observou que os delitos da rua não são apenas fruto da pobreza extrema. Também são fruto da ética individualista.

A obsessão social do êxito, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Sempre ouvi dizer que o dinheiro não produz a felicidade, mas qualquer espectador pobre de TV tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro produz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX pôs fim a sete mil anos de vida humana centrada na agricultura desde que apareceram as primeiras culturas, em fins do paleolítico. A população mundial urbaniza-se, os camponeses fazem-se cidadãos.

Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação, e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios.

Eles acreditam que Deus está em toda parte, mas por experiência sabem que atende nas grandes urbes. As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os que esperam vêem passar a vida e morrem a bocejar; nas cidades, a vida ocorre, e chama.

Apinhados em tugúrios, a primeira coisa que descobrem os recém chegados é que o trabalho falta e os braços sobram. Enquanto nascia o século XIV, frei Giordano da Rivalto pronunciou em Florença um elogio das cidades.

Disse que as cidades cresciam "porque as pessoas têm o gosto de juntar-se". Juntar-se, encontrar-se. Agora, quem se encontra com quem? Encontra-se a esperança com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente se encontra com as coisas?

O mundo inteiro tende a converter-se num grande écran de televisão, onde as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de autocarros e de comboios, que até há pouco eram espaços de encontro entre pessoas, estão agora a converter-se em espaços de exibição comercial.

O centro comecial, ou shopping center, vitrina de todas as vitrinas, impõe a sua presença avassaladora. As multidões acorrem, em peregrinação, a este templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que os seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora submete-se ao bombardeio da oferta incessante e extenuante.

A multidão, que sobe e baixa pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago, e para ver e ouvir não é preciso pagar bilhete.

Os turistas vindos das povoações do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas bênçãos da felicidade moderna, posam para a foto, junto às marcas internacionais mais famosas, como antes posavam junto à estátua do grande homem na praça. Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao centro comercial, como antes iam ao centro.

O tradicional passeio do fim de semana no centro da cidade tende a ser substituído pela excursão a estes centros urbanos. Lavados, passados e penteados, vestidos com as suas melhores roupas, os visitantes vêm a uma festa onde não são convidados, mas podem ser observadores.

Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas. A cultura do consumo, cultura do efémero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade vender.

As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.

O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava ali, hoje está aqui, amanhã, quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os centros comerciais, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como esgotam, pouco depois de nascer, as imagens que dispara a metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas a que outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo?

A sociedade de consumo é uma armadilha caça-tolos. Os que têm a alavanca simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta.

A injustiça social não é um erro a corrigir, nem um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um centro comercial do tamanho do planeta.



Eduardo Galeano

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As 10 empresas que controlam tudo o que compra


RiseUP Portugal

26/12/2016

As 10 empresas que controlam tudo o que compra

Apenas 10 empresas controlam quase todas as grandes marcas de alimentos e bebidas do mundo.
Empresas como a Nestlé, PepsiCo, Coca-Cola, Unilever, Danone, General Mills, Kellogg’s, Mars, Associated British Foods e Mondelez, têm receitas que ascendem aos vários milhões de euros por ano e controlam quase tudo o que compra.

Num esforço para empurrar estas empresas a fazerem mudanças positivas e para que os clientes percebam quem controla as marcas que estão a comprar, a Oxfam criou uma infografia que mostra como as marcas que consumimos estão interligadas entre si. Imagem em XXL


Nestlé
Receitas de 2015: 77.8 mil milhões de euros | A Nestlé inclui algumas marcas que vão desde comida de bebé, a pizza congelada até aos chocolates.

Kellogg's
Receitas de 2015: 12 mil milhões de euros | Alem dos cereais Froot Loops e Frosted Flakes, a Kellogg's também é dona de marcas que incluem a Eggo, Pringles, e Cheez-It.

Associated British Foods
Receitas de 2015: 14.85 mil milhões de euros | Esta empresa britânica detém marcas como os cereais Dorset, o chá Twinings e a retalhista Primark.

General Mills
Receitas de 2015: 15.85 mil milhões de euros | A General Mills é mais conhecida por ícones de venda como Cheerios e Chex mas também é proprietária de marcas como a Yoplait, Hamburger Helper, Haagen-Dazs e Betty Crocker.

Danone
Receitas de 2015: 22.27 mil milhões de euros | Mais conhecido pelos iogurtes Activia, Yocrunch e Oikos, a Danone vende também produtos de nutrição médica e água engarrafada.

Mondelez
Receitas de 2015: 26.5 mil milhões de euros | Esta empresa centrada nos snacks de lanches, inclui marcas como Oreo, as pastilhas Trident e Sour Patch Kids.

Mars
Receitas de 2015: 29.5 mil milhões de euros | Mars é mais conhecida pelas suas marcas de chocolate, como por exemplo M & M, mas também é dono do arroz Uncle Ben, Starburst e das pastilhas Orbit.

Coca-Cola
Receitas de 2015: 39.6 mil milhões de euros | A Coca-Cola move-se para além dos refrigerantes com gás, com marcas de bebidas que incluem a Dasani, Fuze e Honest Tea.

Unilever
Receitas de 2015: 52.8 mil milhões de euros | A Unilever tem uma lista diversificada de marcas que inclui o spray corporal Axe, o chá Lipton, os gelados Magnum e a maionese Hellmann.

PepsiCo
Receitas de 2015: 56.6 mil milhões de euros | Além da Pepsi e de outros refrigerantes, a PepsiCo também é dona de marcas como Quaker Oatmeal, Cheetos e Tropicana.

RiseUP Portugal

18/12/2016

Como o sistema financeiro captura a Humanidade através da dívida

"Os Estados, no século XIX, para dotar os sistemas monetários da confiança generalizada por parte das populações e dos negócios, impuseram o monopólio da emissão de moeda-papel - as notas que se usam hoje - em bancos emissores, sem contudo poderem assegurar a convertibilidade dessas notas em ouro. 

Isto é, ao emitirem notas sem contrapartida outra que não a confiança por parte da população, os bancos emissores e os Estados assumiam potencialmente uma dívida que jamais poderiam pagar; e para que ninguém pudesse colocar em causa a confiança no banco emissor/Estado, exigindo a conversão de notas em ouro, os Estados vieram a decretar a inconvertibilidade dessas notas em ouro, a assunção de devedores sem capacidade de pagar as suas dívidas, seja em ouro, seja no que fosse."

A dívida, ao tornar-se perpétua constitui uma renda que alimenta o parasitismo capitalista. Quer seja aquela que subscrevemos, quer seja aquela que a classe política nos endossa com o rótulo de dívida pública, por encomenda do sistema financeiro.  

Sobre o TTIP

O Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) está claramente ao serviço dos interesses das multinacionais ocidentais numa manobra de instrumentalização das relações entre Estados, naquele que é só mais um exemplo da subjugação da política pela finança.

As multinacionais norte-americanas procuram contrariar, com o TTIP, o avanço da China e, simultaneamente, isolar a Rússia, ao constituírem um grande mercado aberto com a Europa.

O Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) está claramente ao serviço dos interesses das multinacionais ocidentais numa manobra de instrumentalização das relações entre Estados, naquele que é só mais um exemplo da subjugação da política pela finança. 

As multinacionais norte-americanas procuram contrariar, com o TTIP, o avanço da China e, simultaneamente, isolar a Rússia, ao constituírem um grande mercado aberto com a Europa. 

As pequenas e médias empresas serão, neste jogo de gigantes, meros danos colaterais, até porque o liberalismo económico tende a concentrar capital em grandes grupos empresariais e, ao contrário do que é amplamente difundido, o objetivo supremo é a constituição de monopólios geridos por interesses privados.

Os defensores do TTIP argumentam, com base em estudos económicos, que se assistirá a um aumento da riqueza gerada e da criação de emprego, mas não assumem que são organizações financiadas por grandes bancos que financiam esses mesmos estudos. Além do mais, omitem aqueles que foram os estudos que projetavam resultados semelhantes para o futuro, aquando da constituição do NAFTA (o Acordo de livre comércio na América do Norte), desmentidos pela crua realidade do aumento do desemprego, do encerramento de pequenas e médias empresas, da perda de direitos laborais e da maior desregulação na proteção ambiental.

O que se pretende é a liberalização total do comércio, o que pressupõe a redução de barreiras não tarifárias, acabar com os últimos direitos alfandegários e, quem sabe até possibilitar aos investidores (grandes empresas multinacionais) a oposição legal contra legislações e regulamentações consideradas atentatórias da persecução dos seus interesses.

Neoliberalism – the ideology at the root of all our problems

"The words used by neoliberalism often conceal more than they elucidate. “The market” sounds like a natural system that might bear upon us equally, like gravity or atmospheric pressure. But it is fraught with power relations. What “the market wants” tends to mean what corporations and their bosses want."

Imagine if the people of the Soviet Union had never heard of communism. The ideology that dominates our lives has, for most of us, no name. Mention it in conversation and you’ll be rewarded with a shrug. Even if your listeners have heard the term before, they will struggle to define it. Neoliberalism: do you know what it is?

Its anonymity is both a symptom and cause of its power. It has played a major role in a remarkable variety of crises: the financial meltdown of 2007‑8, the offshoring of wealth and power, of which the Panama Papers offer us merely a glimpse, the slow collapse of public health and education, resurgent child poverty, the epidemic of loneliness, the collapse of ecosystems, the rise of Donald Trump. But we respond to these crises as if they emerge in isolation, apparently unaware that they have all been either catalysed or exacerbated by the same coherent philosophy; a philosophy that has – or had – a name. What greater power can there be than to operate namelessly?

So pervasive has neoliberalism become that we seldom even recognise it as an ideology. We appear to accept the proposition that this utopian, millenarian faith describes a neutral force; a kind of biological law, like Darwin’s theory of evolution. But the philosophy arose as a conscious attempt to reshape human life and shift the locus of power.

Neoliberalism sees competition as the defining characteristic of human relations. It redefines citizens as consumers, whose democratic choices are best exercised by buying and selling, a process that rewards merit and punishes inefficiency. It maintains that “the market” delivers benefits that could never be achieved by planning.

06/12/2016

Imparidades e Competitividade

Quando um banco financia um investimento em acções está colocando o dinheiro para influenciar a gestão de um segundo banco e isso distorce a concorrência. Foi o que sucedeu com o famoso empréstimo concedido pela CGD a Joe Berardo.

Falou-se muito de imparidades e ficou a ideia de que estas se devem em grande parte ao crédito à habitação, o que é falso. A verdade é que os bancos aldrabam as suas contabilidades, mantendo como créditos empréstimos em relação aos quais já não têm qualquer esperança de recuperação. Não só os bancos recorrem a este estratagema como a própria lei favorece esta imensa vigarice nacional.

Foi criado um regime destinado a recuperar empresas, os Processos Especiais de Revitalização (PER) que servem apenas para que empresários pouco escrupulosos consigam iludir decisões judiciais, enquanto os bancos aproveitam para fazer de conta que perdas continuam a ser créditos que contabilizam juros.

Esta imensa vigarice nacional tem servido par que empresários que há muito deviam estar falidos e fora do mercado, continuem a prejudicar empresas competitivas e cumpridoras, reduzindo-lhes a capacidade de crescimento, quando não as levam à falência. Quando se fala de dívidas ao fisco sabe-se que uma boa parte é incobrável, os bancos estão atafulhados de crédito malparado. Mas Os Berardos e todos os que andam no mercado prejudicando terceiros com dinheiro emprestado continuam a fazê-lo.

As imparidades da banca provocaram duplo prejuízo à economia. Conhecemos o prejuízo que os bancos e, em última análises, os contribuintes tiveram de suportar. Mas há um prejuízo de que ninguém fala, o rasto de empresas que ficaram em dificuldades por causa de empresários que lhes fizeram concorrência desleal, porque beneficiaram de financiamentos que não eram para serem pagos.

As imparidades da banca não passam da parte visível de um imenso iceberg que constitui um perigo par a nossa economia, que destrói boas empresas e que vai apodrecendo a nossa economia. No caso dos negócios da CGD esta concorrência desleal combina-se com os poderes políticos, quer nacionais, quer o dos imensos aparelhos partidários locais que julgam mandar nas autarquias, nas repartições de finanças, nas filiais da CGD em tudo o que seja Estado e dependa de um ministro do partido.

25/11/2016

E agora já vamos prestar atenção ?

O Presidente da CMVM faz relatório preocupante. Ainda o piorámos com informação adicional, ao simplificá-lo e a acrescentar perguntas.
"É mais fácil enganar as pessoas, que convencê-las que foram enganadas" - Mark Twain
 
Trouxeram à nossa atenção um relatório intitulado - "A Crise Financeira: Aprendemos as Lições?" - com 46 páginas realizado pelo Carlos Tavares, actual presidente da Comissão do Mercados de Valores Mobiliários. Nem este nem o Banco de Portugal são farol ou sinónimo de instituições a ter em conta para estarmos a salvo de trafulhices e esquemas bancário-financeiros, contudo são fontes de informação com interesse nacional. Dito isto, vamos falar do mais importante deste artigo, simplificando ainda mais, adicionando informação e colocando as perguntas que poucos fazem. Para os impacientes, a resposta é - Não, não aprendemos as lições, e só não aprendemos nada como está tudo pior, e a conclusão até nem é nossa. E agora já vamos prestar atenção?


Da "crise de 2007" resultaram uma série de recomendações para "evitar" novas crises
 
i) Que os bancos deveriam ser mais pequenos e mais simples;
ii) Que o excesso de crédito/dívida que conduzira ao desencadear da crise imporia um processo de desalavancagem significativa;
iii) Que os mercados deviam ser mais regulados e mais transparentes;
iv) Que os produtos financeiros deveriam ser mais simples e de características bem conhecidas dos investidores;
v) Que seriam necessárias melhores avaliação e gestão dos riscos


Passados 8 anos estamos assim;

30/10/2016

Galp ganha 6 novas plataformas, mas não quer pagar impostos

Duas notícias que sairam a público quase em simultaneo prederam a nossa atenção. 

O presidente da Galp, Carlos Gomes da Silva, revela que a empresa não irá pagar a Contribuição Extraordinária do setor Energética (CESE) prevista no Orçamento do Estado para 2017 (OE2017). Este é o quarto ano consecutivo em que a petrolífera não liquida o imposto. 

Enquanto isso, a Galp vai ganhar mais seis plataformas petrolíferas no Brasil e Angola. Os navios plataforma FPSO encontram-se actualmente em construção.




Galp não vai pagar contribuição da energia pelo quarto ano consecutivo 


A CESE foi introduzida no Orçamento do Estado para 2014, tendo sido sido renovada todos os anos, desde então. A Galp discordou do imposto desde o início. Contestou a tributação nos tribunais e não tem feito a liquidação do imposto. Não pagou em 2014, 2015 e 2016, e o próximo ano não será diferente.

Numa apresentação aos jornalistas, Carlos Gomes da Silva foi questionado sobre como irá a Galp lidar com a manutenção desta sobretaxa em 2017. “Vamos lidar da mesma forma com que lidámos até agora. Discordamos desse imposto, que viola as regras de tributação, e não vamos mudar a nossa posição”, afirmou o gestor, acrescentando que ainda “não há desenvolvimentos legais” sobre os processos em litígio.

Para o responsável da Galp, a tributação “não segue os principais de como devem ser taxadas as empresas”, que devem ser tributadas sobre resultados e não sobre ativos. “Discutimos a questão no sítio adequado, que são os tribunais”, frisou, garantindo que a empresa “respeitará a decisão” dos juízes.

Embora não liquide o imposto, CESE acaba por afetar as contas do grupo. Carlos Gomes da Silva explicou que a contestação do imposto obriga à prestação de garantias, além de implicar a constituição de provisões a 100%, para fazer face a uma decisão futura dos tribunais. Segundo o gestor, a CESE obriga a provisões de cerca de 50 milhões de euros por ano.



Galp vai ganhar seis novas plataformas de petróleo no Brasil e Angola

A Galp vai ganhar mais seis plataformas petrolíferas no Brasil e Angola. Os navios plataforma FPSO encontram-se actualmente em construção.

A companhia espera que os seis FPSO - que extraem o petróleo do fundo do mar - devam entrar em operação até final de 2018. Quatro deles destinam-se a produzir petróleo no pré-sal da Bacia de Santos no Brasil. Os outros dois vão ter como destino o Bloco 32 no mar de Angola. O anúncio foi feito pelo presidente executivo da Galp, Carlos Gomes da Silva, esta sexta-feira, 28 de Outubro, durante a apresentação de resultados.


A companhia portuguesa já tem seis FPSO em produção no pré-sal do Brasil. Foi este ano que entraram em operação os dois últimos FPSO deste seis. Os primeiros quatro FPSO já atingiram o "plateau", o seu nível de produção máxima, mas os dois mais recentes, ainda estão na fase de "ramp up", de subida de produção, e só deverão atingir o seu nível máximo no próximo ano. As acções da Galp recuam 0,12% para 12,5 euros.



12/07/2016

Como a Goldman Sachs lucrou com a crise da dívida grega

"Em 2001, a Grécia procurava maneiras de mascarar os seus crescentes problemas financeiros. O Tratado de Maastricht exigia que todos os membros da zona do euro mostrassem melhorias nas contas públicas, mas a Grécia ia na direção oposta.Então o Goldman Sachs veio em seu socorro, oferecendo um empréstimo secreto de 2,8 mil milhões de euros, disfarçado de swap cambial não contabilizado – uma operação complicada, em que a dívida da Grécia em moeda estrangeira foi convertida em obrigações em moeda local, utilizando uma taxa de câmbio fictícia.

Em 2005, a Grécia já devia quase o dobro do que constara no acordo, fazendo a dívida não declarada saltar de 2,8 mil milhões para 5,1 mil milhões de euros. Em 2005, o acordo foi reestruturado e a dívida fixada em 5,1 milhões. Talvez não por acaso, Mario Draghi, hoje presidente do Banco Central Europeu e um ator importante no atual drama grego, era então o diretor da divisão internacional do Goldman."
 
A crise da dívida grega põe em evidência uma vez mais os poderes de persuasão e predação de Wall Street – uma peça que permanece invisível na maioria dos relatos sobre a crise do outro lado do mundo.

A crise foi agravada anos atrás por uma operação do Goldman Sachs, arquitetado pelo atual diretor-executivo do banco, Lloyd Blankfein. Juntamente com a sua equipa, Blankfein ajudou a Grécia a esconder a verdadeira dimensão da sua dívida e, no processo, fê-la praticamente dobrar de tamanho. Da mesma forma como ocorreu na crise do subprime americano, e que levou à atual situação crítica de muitas cidades americanas, um empréstimo predatório de Wall Street teve um papel importante na crise grega, embora pouco reconhecido.

Em 2001, a Grécia procurava maneiras de mascarar os seus crescentes problemas financeiros. O Tratado de Maastricht exigia que todos os membros da zona do euro mostrassem melhorias nas contas públicas, mas a Grécia ia na direção oposta. 

Então o Goldman Sachs veio em seu socorro, oferecendo um empréstimo secreto de 2,8 mil milhões de euros, disfarçado de swap cambial não contabilizado – uma operação complicada, em que a dívida da Grécia em moeda estrangeira foi convertida em obrigações em moeda local, utilizando uma taxa de câmbio fictícia.

Como resultado, cerca de 2% da dívida da Grécia magicamente desapareceram das suas contas nacionais. Christoforos Sardelis, então chefe da Agência de Gestão da Dívida Pública da Grécia, mais tarde descreveu o acordo na Bloomberg Business como “uma história muito sexy entre dois pecadores”. Pelos serviços, o Goldman recebeu a soma colossal de 600 milhões de euros (793 milhões de dólares), de acordo com Spyros Papanicolaou, que substituiu Sardelis em 2005. Isso representou quase 12% da receita da gigantesca unidade do Goldman de trading e principal-investments em 2001 – que, aliás, bateu recorde de vendas nesse ano. A unidade era dirigida por Blankfein.

Então, o negócio azedou. Após os ataques de 11 de setembro, o rendimento dos títulos caiu, resultando em grande perda para a Grécia por causa da fórmula usada pelo Goldman para calcular o pagamento da dívida do país com o swap. Em 2005, a Grécia já devia quase o dobro do que constara no acordo, fazendo a dívida não declarada saltar de 2,8 mil milhões para 5,1 mil milhões de euros. Em 2005, o acordo foi reestruturado e a dívida fixada em 5,1 milhões. Talvez não por acaso, Mario Draghi, hoje presidente do Banco Central Europeu e um ator importante no atual drama grego, era então o diretor da divisão internacional do Goldman.

01/07/2016

Idiotas no Leme

O elefante no meio da sala não é o resultado do défice, mas a falácia de um programa de ajustamento deficiente que nunca cuidou sequer de aliviar as restrições mais básicas, como os esmagadores juros da dívida.

Quiçá entusiasmados pelo ditado português “o que arde cura”, e segundo afiança o Le Monde, a politicada “Bruxelista” do Excel quer deitar mais “achas para a fogueira” do descontentamento popular. 

Tudo porque Portugal foi para além dos planos da ‘troika’, qual bom aluno sedento pela palmadinha condescendente do dono.

A medida de sancionar um país que tudo fez dentro das limitações do engenho e competência dos seus governantes, que aceitou sem grandes percalços os enormes constrangimentos impostos, que seguiu cegamente uma via de empobrecimento desprovida de qualquer fundamento técnico, hipotecando o seu presente e futuro, tal povo não pode ser certamente o destino de mais um atentado à sua honra.

O elefante no meio da sala não é o resultado do défice, mas a falácia de um programa de ajustamento deficiente que nunca cuidou sequer de aliviar as restrições mais básicas, como os esmagadores juros da dívida. Mesmo que o objectivo do défice tivesse sido cumprido, e não o foi por uma nesga, Portugal pagou entretanto mais de 32 mil milhões de euros só em juros! Isto quando o BCE cria dinheiro do nada e empresta à banca não apenas a custo zero como até paga para emprestar, é obscenamente inaceitável!

Ao invés de curar uma ferida, os idiotas no leme em Bruxelas vão colocar antes sal na ferida. Vai doer, vai piorar a situação económica, mas principalmente vai fornecer as únicas verdades aos discursos dos “Nigel Farage” da União Europeia, quando afirmarem que os burocratas de Bruxelas nunca fizeram um único trabalho decente nas suas vidas.

O ‘Brexit’, ao invés de estar a ser uma oportunidade para uma Europa melhor, aparenta, tal como temia, ser a continuação de um plano de estrangulamento e subjugação dos países mais pequenos por parte da Alemanha. A existir realmente uma saída do Reino Unido do projecto europeu, a UE consolida a direcção de “partido” único, onde a intransigência cega vai reinar. O primeiro exemplo disso será o regresso da prepotência e discricionariedade da PIDE, neste caso pela mão do Procedimento Intransigente de Défice Excessivo.

por Marco Silva no Económico

Marco Silva é analista e comentador financeiro 
e tem o seu próprio espaço no facebook que poder ver clicando neste link



30/06/2016

Schäuble: Especular resgastes a Portugal e facturar em juros da dívida com isso?

A confusão partiu de uma conferência, esta quarta-feira, em Berlim, onde participava o ministro alemão das Finanças. Segundo a agência de informação financeira Bloomberg, Wolfgang Schäuble disse que Portugal estaria no processo de pedir “um segundo programa” de resgate e, segundo o governante, estaria a "consegui-lo". 


Minutos mais tarde, o ministro alemão corrigiu as declarações e esclareceu, em resposta aos jornalistas, que “os portugueses não vão precisar de um segundo resgate se cumprirem as regras europeias”. 

Pressão política. É desta a forma que analistas e economistas veem as declarações do ministro das Finanças alemão sobre Portugal poder arriscar um segundo resgate. Wolfgang Schäuble suavizou depois o discurso, mas os juros da dívida pública portuguesa acabaram por subir em todos os prazos.


Como disse o economista Carlos Paz: "Gostaria de conhecer os movimentos (compras, vendas e futuros), dessa meia hora, feitos sobre a Dívida Pública portuguesa (e/ou respectivos seguros e produtos de garantia), pelas duas sociedades de investimento controladas por Wolfgang (Schauble)".

Fabricar ricos

Um homem rico, não sei se muito ou pouco, nem importa, durante um jantar em Moscovo tratou de me explicar a origem de tantos súbitos milionários na Rússia.

Após o colapso da economia soviética, o poder político de então, sobretudo com Yeltsin, achou que era necessário criar uma nova economia assente no mercado e na livre iniciativa. Sucede que não existiam empresários, nem capital, muito menos famílias abastadas, grandes industriais, investidores, ou seja, aquilo de que se faz o nosso mundo capitalista. Não existiam, tiveram de ser fabricados. Como? Privatizando praticamente tudo, a preços extremamente baixos e, frequentemente, simplesmente oferecendo fábricas e recursos. A quem? Maioritariamente a amigos e membros do próprio aparelho de Estado.

Este processo não foi realizado sem percalços. Com a ascensão de Putin, alguns dos chamados oligarcas foram eliminados, enquanto outros surgiram e continuam a surgir. 

O meu interlocutor diz que isto são histórias irrelevantes, que só interessam ao Ocidente para dizer mal da Rússia. Para ele, o importante é que se tenha criado uma economia muito dinâmica a partir do nada, beneficiando extraordinariamente uns poucos, mas arrastando a maioria para uma vida melhor. 

Para este homem, os ricos são o motor de qualquer economia. Mesmo quando são estúpidos e gastam o dinheiro em futilidades.

Recentemente um amigo angolano disse-me praticamente o mesmo referindo o caso de Angola. Com uma justificação um pouco mais elaborada. A fabricação de ricos em Angola visou proteger a economia do país do controlo estrangeiro. Sem ricos, as principais empresas e recursos seriam capturados por investidores de outros países. Pode ser chocante assistir à acumulação de riqueza por um lado enquanto a miséria cresce pelo outro, mas se fossem todos pobres estariam nas mãos de novos colonos.

Recorde-se ainda que nos anos 1980 o próprio Mário Soares convenceu Ricardo Salgado, Sousa Cintra e outros a voltarem a investir em Portugal. Ajudando, por exemplo, Salgado a recuperar o BES. Mário Soares considerava então que o país saído de uma revolução e subsequentes nacionalizações precisava de capitalistas ou seria tomado por interesses estrangeiros. O que aliás acabou por acontecer, diga-se de passagem.

21/06/2016

A União Europeia transformou a Europa num bordel

"A questão é que a UE é apenas uma máscara que disfarça o domínio de um grande grupo de países por um pequeno grupo de países, numa nova forma de ocupação que usa a finança como instrumento de submissão, como antes se usavam tanques.

A questão é que a UE é uma organização antidemocrática, que não só é governada por dirigentes não eleitos e não removíveis, da Comissão Europeia ao Banco Central Europeu, como construiu ardilosamente uma camisa de forças jurídica, sob a forma de tratados irreformáveis de facto, através da qual manieta e subjuga os Estados-membros e lhes impõe políticas que estes não escolheram, mas não podem recusar."

Era um dia de Primavera de 1995. Atravessei de carro a ponte sobre o rio Minho, ao pé de Valença, em direcção à cidade galega de Tuy, e não aconteceu absolutamente nada. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida.

Eu estava habituado a entrar em Espanha depois de parar na fronteira, esperar numa bicha interminável de carros e camiões, mostrar o passaporte, responder a perguntas dos guardas e deixar o carro ser revistado antes de poder seguir caminho. E a travessia desta fronteira despertava sempre recordações de antes do 25 de Abril, onde a espera era ainda mais demorada, as perguntas mais agressivas, os polícias mais desagradáveis e as revistas mais rigorosas, principalmente para os jovens que tinham de apresentar os seus documentos militares em ordem e podiam estar a preparar-se para fugir à guerra colonial.

Foi por isso que atravessar a ponte e entrar em Espanha sem ver um único polícia, sem ver um posto de fronteira, sem mostrar um documento, foi uma experiência inesquecível.

Na altura eu era ainda um ingénuo adepto da União Europeia e aquilo era para mim a Europa. Não só a liberdade de circulação, mas a corporização da própria liberdade dos cidadãos, da confiança na sociedade, da cooperação e da solidariedade entre os estados.

Eu era então, como me considero ainda hoje, um europeu e um europeísta. Nascido entre dois países e duas línguas, educado entre quatro línguas, habituado a desconfiar de todos os nacionalismos, a ideia de uma Europa que transcende os seus países sempre me foi cara.

É por isso que, na próxima quinta-feira, quando conhecermos os resultados do referendo no Reino Unido, eu espero ardentemente que o resultado seja a vitória do “Brexit”.

Não porque penso que o Reino Unido vá ficar melhor fora da UE. Não porque pense que a UE vai ficar melhor sem o Reino Unido. Mas apenas porque espero que a saída do Reino Unido seja o choque que irá provocar o abalo político, o exame de consciência e o toque a rebate democrático de que a União Europeia precisa para se reformar de forma radical e para se reconstruir, num formato e com regras diferentes, sob o signo da decência. E não penso que isso seja possível sem uma vitória do “Brexit”.