Este documentário causou a raiva nos mais altos quadros políticos e militares israelitas e, depois de o vermos, percebemos exatamente porquê.
Baseado nos depoimentos anónimos de 24 oficiais e soldados dos próprios serviços de inteligência do país, o filme revela como a Inteligência Artificial e a vigilância em massa transformaram o assassinato de civis numa fria métrica de eficiência estatística.1. O que quer dizer "NAZA"?
NAZA (Nezek Agavi) é o acrónimo militar em hebraico para "dano colateral". Trata-se da cota numérica que estipula quantos civis palestinianos a liderança militar aceita matar conscientemente para eliminar um único alvo. Ou seja, como o termo “dano colateral” popularizado pelos Estados Unidos faz, dizermos "NAZA 50" evita dizer 50 civis inocentes, 50 pessoas que só vão ali a passar, ou mesmo 50 crianças. "NAZA 50" é menos pessoal e nem parece crime de guerra.
As revelações destes operacionais israelitas demonstram que essas margens perderam qualquer senso de proporcionalidade exigido pelo direito internacional. Enquanto para militantes de baixo escalão a cota aceitável girava em torno de "20 NAZA" (até 20 civis mortos por um único alvo), o filme expõe que o comando militar autorizou tetos absurdos de "500 NAZA" para assassinar um único comandante sénior. Na prática, o exército assinou ordens de bombardeamento sabendo de antemão que estaria a dizimar o equivalente à população de uma pequena vila de inocentes para alcançar um único homem.
2. Morrer por sistema de pontos
A seleção desses alvos abandonou os métodos tradicionais de espionagem humana para adotar uma escala industrial através do Lavender, um software baseado em Inteligência Artificial. O Lavender monitoriza ativamente os dados de telecomunicações de toda a população de Gaza e atribui a cada indivíduo (neste caso, a cada telemóvel que a pessoa leva consigo) uma pontuação com base na probabilidade de pertencer ao Hamas.
Os critérios de pontuação operam numa lógica perigosa quando se está a falar em bombardear seres humanos numa zona de alta densidade populacional. Estar num grupo de WhatsApp que inclua um suspeito também identificado por este sistema, ter na sua agenda de números de telefone um determinado número de certa pessoa guardado, cruzar caminhos geograficamente com um alvo demarcado, passar numa rua a determinadas horas, ou algo tão simples descrito no filme como ir a uma determinada padaria, eleva a pontuação da pessoa. Uma vez atingido o limite estatístico da máquina (ter um determinado número de pontos), o indivíduo entrava numa lista automatizada de execução.
Os oficiais humanos que operavam o sistema funcionavam como meros carimbos de validação na aprovação do alvo, sem realizar qualquer verificação aprofundada dos dados brutos gerados pela IA.
3. UPS … Se calhar enganei-me …
O documentário joga luz sobre a perigosa ilusão de infalibilidade vendida pela tecnologia de guerra. Confiar que meta dados dos telemóveis definem quem é um combatente repete um erro metodológico trágico da história militar recente.
Há um paralelo histórico perfeito com as operações dos EUA no Afeganistão. Nos anos 2000, a inteligência americana descobriu que membros da Al-Qaeda utilizavam o relógio digital barato Casio F-91W para fabricar detonadores de bombas.
Rapidamente, o exército norte-americano apontou a posse desse relógio — um dos modelos mais vendidos do planeta — como indicador de terrorismo.
O resultado foi o sequestro, a venda por recompensas e a tortura em massa de dezenas de civis inocentes na prisão de Guantánamo pelo simples facto de usarem um relógio.
Em Gaza, ao automatizar os alvos com base em cartões SIM e padrões de rede — ignorando uma taxa de erro assumida pelos próprios responsáveis israelitas de 15% —, Israel repete a mesma falha estrutural, porém numa escala letal infinitamente maior.
4. "Where's Daddy?": Quando e onde atacar
Uma das passagens mais estarrecedoras de NAZA desconstrói categoricamente o argumento retórico oficial de que as baixas civis ocorrem porque o Hamas utiliza a população como "escudo humano".
Os depoimentos provam o exato oposto: a própria Inteligência das Forças de Defesa de Israel (IDF) estruturou um programa chamado "Where’s Daddy?" (Onde está o papá?) feito especificamente para identificar onde os alvos moram.
Utilizando a geolocalização nos telemóveis para mapear o local exato onde o telemóvel do suspeito permanece imóvel durante o horário de sono na maioria das ocasiões (ou seja … onde dorme à noite), o algoritmo pretende assim identificar a sua residência familiar.
Em Gaza, ao automatizar os alvos com base em cartões SIM e padrões de rede — ignorando uma taxa de erro assumida pelos próprios responsáveis israelitas de 15% —, Israel repete a mesma falha estrutural, porém numa escala letal infinitamente maior.
4. "Where's Daddy?": Quando e onde atacar
Uma das passagens mais estarrecedoras de NAZA desconstrói categoricamente o argumento retórico oficial de que as baixas civis ocorrem porque o Hamas utiliza a população como "escudo humano".
Os depoimentos provam o exato oposto: a própria Inteligência das Forças de Defesa de Israel (IDF) estruturou um programa chamado "Where’s Daddy?" (Onde está o papá?) feito especificamente para identificar onde os alvos moram.
Utilizando a geolocalização nos telemóveis para mapear o local exato onde o telemóvel do suspeito permanece imóvel durante o horário de sono na maioria das ocasiões (ou seja … onde dorme à noite), o algoritmo pretende assim identificar a sua residência familiar.
Esta informação permite perceber qual o local mais provável de um determinado alvo estar a uma determinada altura.
Assim, os ataques residenciais noturnos tornaram-se a primeira opção militar por pura conveniência logística e económica.
Segundo os próprios operadores, algo como o facto de um dos telemóveis que estão em casa naquele momento mandar um simples SMS como “Mãe, o pai já chegou”, faz disparar o alarme.
Mais chocante ainda é o relato sensorial dos operadores: através das intercetações do áudio do telefone hackeado do alvo, ou seja, a ouvirem o alvo em casa, os elementos das equipas da inteligência relatam que escutavam em tempo real as vozes das mulheres na cozinha, o som da televisão ligada e o choro ou o riso de crianças na sala de estar antes de carregar no botão.
Segundo os próprios operadores, algo como o facto de um dos telemóveis que estão em casa naquele momento mandar um simples SMS como “Mãe, o pai já chegou”, faz disparar o alarme.
Mais chocante ainda é o relato sensorial dos operadores: através das intercetações do áudio do telefone hackeado do alvo, ou seja, a ouvirem o alvo em casa, os elementos das equipas da inteligência relatam que escutavam em tempo real as vozes das mulheres na cozinha, o som da televisão ligada e o choro ou o riso de crianças na sala de estar antes de carregar no botão.
E o bombardeamento ocorria sob plena consciência de que famílias inteiras seriam soterradas vivas.
Numa das entrevistas um dos operadores revelou que nalguns casos, também chegou a ouvir depois do bombardeamento. Gritos, choros ou pedidos de ajuda.
5. Destruir edifícios esteja ou não lá gente
Por fim, o documentário detalha o funcionamento do sistema Habsora (The Gospel). (o nome deste sistema não é usado no próprio documentário, mas é descrito por vários artigos posteriores à estreia do filme e por isso sabemos o seu nome).
Este sistema é focado na destruição da infraestrutura urbana de Gaza e não em indivíduos, e opera com uma métrica de esvaziamento. Ou seja, o sistema valida o bombardeamento de edifícios se for determinado que uma certa percentagem dos seus moradores ou habituais ocupantes não se encontra lá. Segundo os próprios operadores israelitas, a todos os edifícios em Gaza foram atribuídos um número de código para facilitar a sua identificação.
Quando o alvo é um edifício e não um alvo humano, não falamos em NAZA 10, NAZA 20 ou NAZA 50. Aqui falamos em percentagens. Se o edifício chegar a um mínimo de 25% da sua habitual ocupação, a ordem é dada para o destruir.
5. Destruir edifícios esteja ou não lá gente
Por fim, o documentário detalha o funcionamento do sistema Habsora (The Gospel). (o nome deste sistema não é usado no próprio documentário, mas é descrito por vários artigos posteriores à estreia do filme e por isso sabemos o seu nome).
Este sistema é focado na destruição da infraestrutura urbana de Gaza e não em indivíduos, e opera com uma métrica de esvaziamento. Ou seja, o sistema valida o bombardeamento de edifícios se for determinado que uma certa percentagem dos seus moradores ou habituais ocupantes não se encontra lá. Segundo os próprios operadores israelitas, a todos os edifícios em Gaza foram atribuídos um número de código para facilitar a sua identificação.
Quando o alvo é um edifício e não um alvo humano, não falamos em NAZA 10, NAZA 20 ou NAZA 50. Aqui falamos em percentagens. Se o edifício chegar a um mínimo de 25% da sua habitual ocupação, a ordem é dada para o destruir.
Assim, num edifício onde regularmente se encontrem 40 sinais de telemóvel, se forem detetados 10, bombardeia-se e destrói-se, independentemente de quem lá esteja, de se encontrar ou não um único alvo identificado no sistema explicado anteriormente, e independentemente de que tipo de edifício seja (talvez agora estejam melhor explicados os bombardeamentos a escolas, hospitais, etc). A regra funciona com edifícios de todo e qualquer tamanho, todo e qualquer número habituais ocupantes. Aqui o que conta é a percentagem.
Os próprios operadores entrevistados argumentam que essa destruição massiva de edifícios com base em dados de localização de telemóveis esconde uma tática deliberada de engenharia demográfica: tornar regiões inteiras de Gaza completamente inabitáveis.
Ao pulverizar bairros residenciais inteiros sob o pretexto de "limpar alvos", destrói-se o tecido urbano e as condições básicas de vida, garantindo estrategicamente que a população palestiniana deslocada nunca mais tenha lares para onde retornar.
É assim este, o exército mais moral do mundo segundo Benjamin Netanyahu, descrito pelos seus próprios operadores israelitas.
O cinema documental cumpre, historicamente, o papel de furar as bolhas da propaganda estatal em tempos de guerra. No entanto, poucos filmes na história recente carregam o peso demolidor de "NAZA", longa-metragem dirigida pelos jornalistas israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor. Ovacionado de pé por 25 minutos no Festival de Cinema de Veneza, onde conquistou o Prémio Especial do Júri, a obra gerou fúria imediata no escalão político de Israel, com ministros a classificar os autores como "traidores".
Este é um documentário difícil de ver, mas aconselhamo-lo vivamente e é um documento histórico. Está neste momento nos cinemas e os autores dizem que o vão colocar de forma gratuita na internet.
Os próprios operadores entrevistados argumentam que essa destruição massiva de edifícios com base em dados de localização de telemóveis esconde uma tática deliberada de engenharia demográfica: tornar regiões inteiras de Gaza completamente inabitáveis.
Ao pulverizar bairros residenciais inteiros sob o pretexto de "limpar alvos", destrói-se o tecido urbano e as condições básicas de vida, garantindo estrategicamente que a população palestiniana deslocada nunca mais tenha lares para onde retornar.
É assim este, o exército mais moral do mundo segundo Benjamin Netanyahu, descrito pelos seus próprios operadores israelitas.
O cinema documental cumpre, historicamente, o papel de furar as bolhas da propaganda estatal em tempos de guerra. No entanto, poucos filmes na história recente carregam o peso demolidor de "NAZA", longa-metragem dirigida pelos jornalistas israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor. Ovacionado de pé por 25 minutos no Festival de Cinema de Veneza, onde conquistou o Prémio Especial do Júri, a obra gerou fúria imediata no escalão político de Israel, com ministros a classificar os autores como "traidores".
Este é um documentário difícil de ver, mas aconselhamo-lo vivamente e é um documento histórico. Está neste momento nos cinemas e os autores dizem que o vão colocar de forma gratuita na internet.








