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18/09/2017

Auto-estradas privatizadas rendem 50 milhões ao grupo Mello

As auto-estradas concessionadas à Brisa renderam lucros de quase 50 milhões de euros, entre Janeiro e Julho deste ano. Os proveitos com as 11 concessões da empresa privatizada quase duplicaram face ao primeiro semestre de 2016.

O lucro da Brisa Concessão Rodoviária (BCR) no primeiro semestre de 2017 foi de 48,7 milhões de euros, uma subida de 82,2% face aos 26,7 milhões registados no período homólogo do ano passado. As receitas com portagens nas 11 auto-estradas concessionadas à Brise renderam mais de 250 milhões de euros em apenas meio ano, de acordo com a informação comunicada ontem à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

Num período em que não houve construção de quaisquer novos lanços, e apesar do reforço dos lucros, a BCR investiu menos na rede sob sua gestão do que nos primeiros seis meses do ano passado. Dos 19,4 milhões de euros investidos, a maioria foi dirigida para os alargamentos na A1 e na A4, junto à cidade do Porto, e à repavimentação de troços da A1, da A2, da A5 e da A6.

O regresso do capital monopolista

 

A Brisa é uma das empresas que foram incluídas pelo governo do PS chefiado por António Guterres no pacote de privatizações de 1997. O capital da empresa, a quem, em 1972, o regime fascista tinha entregado a concessão das auto-estradas até 2030, começou por ser totalmente privado. Após a nacionalização da banca, em 1975, o Estado assumiu uma posição significativa no capital da Brisa, que foi reforçando. Em 1997, 89,7% do capital da Brisa era público.

Em 2000, Vasco de Mello, herdeiro do grupo económico que, antes do 25 de Abril, detinha a CUF, o Banco Totta & Açores, a seguradora Império, a Lisnave, a Soponata e outras 180 empresas, ganhou um lugar no conselho de administração da Brisa. A partir de 2001, o grupo Mello torna-se accionista de referência, assumindo mais de 20% do capital social da empresa.

Privados receberam Brisa com garantia de dividendos chorudos

 

Um ano antes da privatização, em 1996, a Brisa registou lucros de 12 milhões de contos (cerca de 60 milhões de euros). Nos três anos anteriores, foram concretizados investimentos na rede de auto-estradas da Brisa (então ainda pública) no valor de mais de 800 milhões de euros.

Os estatutos da empresa a partir de 1998, e enquanto o Estado mantinha uma posição maioritária, estabelecia como obrigatória a distribuição de um mínimo de 40% dos lucros em dividendos. Logo nesse primeiro ano após a privatização, a Brisa distribui dividendos ascendendo a perto de 60 milhões de euros.

Actualmente, a Brisa é detida em 33% pelo grupo Mello e em 21% pelo fundo de investimento britânico Arcus. Os restantes 44% são detidos por uma sociedade de direito luxemburguês detida em 55% pelos Mello, com o fundo Apollo – que aproveitou os efeitos das falências do BES e do Banif para comprar as seguradoras Tranquilidade e Açoreana – com o restante.

Este artigo foi retirado do site Abril
Se gostaste deste artigo podes visitar directamente o site neste link

18/12/2016

"Somos um país de medrosos"

É provavelmente o nome mais respeitado da psicanálise em Portugal. António Coimbra de Matos, 86 anos, dedicou grande parte da sua actividade ao estudo da depressão. Admite que estaremos provavelmente a viver um período de depressão colectiva. Deitámos o país no divã do psicanalista.

Entra-se no consultório e dá-se de caras com uma curva do Douro. A vista assombrosa de São Leonardo de Galafura transporta-nos para uma espécie de tempo mítico. Pendurada na parede em frente à porta, aquela fotografia é uma janela para as origens de Coimbra de Matos. 

Ao longo de duas horas de conversa, o psiquiatra e psicanalista, nascido em 1929, evoca por diversas vezes episódios da infância para ilustrar o que diz. Embora se tenha afastado da importância que a teoria psicanalítica clássica dá ao passado. António Coimbra de Matos é um ávido consumidor da ideia de futuro. 

A papelada que se amontoa na secretária a que nos sentamos, um de cada lado, revela o tipo de organização muito pessoal de quem privilegia a actividade à arrumação obsessiva. Fuma incessantemente e concede-se a si próprio o tempo necessário para responder a cada pergunta. Como se fosse a primeira vez que algumas das questões se lhe colocassem.

Carta de Jean-Paul Sartre recusando o Prêmio Nobel de Literatura

"Um escritor que assume posições políticas, sociais ou literárias somente deve agir com meios que lhes são próprios, isto é, com a palavra escrita. Todas as distinções que possa receber expõem seus leitores a uma pressão que não considero desejável."

Jean-Paul Sartre foi um dos maiores pensadores franceses do século XX. Escreveu livros de gênero existencialista, filosófico, teatral, ensaístico e até biográfico. 

Aos 49 anos, o intelectual de obras marcantes como A imaginação (1936), A náusea (1938), O muro (1939), O ser e o nada (1943), entre outras, foi consagrado com o Prêmio Nobel de Literatura, mas, para a surpresa de todos, recusou-o em 22 de outubro de 1964, no mesmo ano de publicação de As palavras, escrevendo uma longa carta publicada no jornal Le Fígaro, onde explicou os motivos para tal atitude. 



A mesma carta foi traduzida e publicada também pelo jornal Última Hora, do Rio de Janeiro, em 23 de outubro de 1964. Confira o texto da carta na íntegra abaixo:

01/12/2016

WikiLeaks: Os arquivos do Yemen

Documentos provam que Estados Unidos armaram, financiaram e treinaram forças no Iémen.

A  25 de Novembro de 2016, o WikiLeaks colocou a público  arquivos sobre o Iémen,  mais de 500 documentos da embaixada dos Estados Unidos em Sana’a, no Iémen. Com mais de 200 e-mails e 300 PDFs, ele detalha documentos oficiais e correspondência pertencentes ao Escritório da Cooperação Militar (OMC) localizado na embaixada dos EUA. Os documentos abrangem o período desde 2009 até pouco antes do início da guerra nesse território, Março de 2015, o qual abrange tanto o mandato de Hillary Clinton como Secretário de Estado (2009-2013) como os dois primeiros anos do mandato do Secretário John Kerry.

Refere Julian Assange
“A guerra no Iémen gerou 3,15 milhões de pessoas deslocadas internamente. Embora o governo dos Estados Unidos tenha fornecido a maioria das bombas e esteja profundamente envolvido na conduta da guerra em si, a reportagem sobre a guerra em inglês é notoriamente rara“.
O Iémen ao controlar um estreito estrangulamento no Mar Vermelho e canal de Suez, por onde passam diariamente cerca de 11% do petróleo do mundo, detém um cobiçado e significativo interesse estratégico. Além disso, ao fazer fronteira com a Arábia Saudita (ao norte) e Omã (a leste), tem acesso ao Mar da Arábia, através do qual passam outros 20% do petróleo vindo do Estreito de Ormuz (incluindo o petróleo da Arábia Saudita e Irão).

A Arábia Saudita quer controlar um porto no Iémen, para evitar a potencial constrição dos seus embarques de petróleo pelo Irão ao longo do Estreito de Ormuz, ou por países que podem controlar seu caminho de transporte do petróleo ao longo do Mar Vermelho.

Os arquivos oferecem evidências documentais do armamento, treino e financiamento das forças iemenitas nos anos da construção até à guerra. Revelam, também, as aquisições de diversos tipos de armas: aviões, navios, veículos, propostas de controlo para a segurança marítima e aquisição de sistemas biométricos norte-americanos. 

A presença dos EUA permaneceu no país até Fevereiro de 2015, quando fecharam a sua embaixada devido à contínua agitação entre as diferentes facções do país. A guerra estourou um mês depois.

por Arte da Omissão

10/11/2016

Será o Web Summit aquilo que pensa?

A regra de ouro para sair de um buraco é parar de cavar, como não paramos vamos continuar a enterrar-nos, a comer terra e a dizer que não sabe bem até enchermos os pulmões com ela. Um dos principais problemas que enfrentamos é de facto este desconhecimento consentido, a ignorância absurda de que o senso comum chega para debatermos um assunto, ou fazer dos argumentos e retóricas de terceiros a nossa defesa. A equidistância para se falar abertamente de um assunto é quase impossível, ou se está contra ou se está a favor. 

Este raciocínio medíocre é o reflexo daquilo que todos nós estamos a produzir enquanto sociedade intelectual e por inerência economicamente e socialmente. É este o caminho que queremos? A maioria o dirá como sempre.

O Web Summit é o caso perfeito disto. Quem sabe de facto o que é este invento? 

Quem é que de facto alguma vez criou e levou os intelectuais “business plans” de empresas para apresentar aos “business angels”? Quem é que de facto alguma vez fez o chamado “pitch”? Pitch, outro termo intelectual adoptado para dizer “Apresentação”. Quem é que de facto financiou alguma empresa assim? Quem é que de facto sabe como tudo isto se processa, o que é preciso e o que os investidores procuram? Não só aqui? Quem é que de facto já teve contacto com este mundo? Quem é que já teve de percorrer os bastidores de tudo isto e mais daquilo que orbita? Não do que se vê, do que está por detrás do pano? Cada um responde em consciência. 

18/07/2016

Angola: República das torturas, das milícias e das demolições

O Submarino Angola
 
Por aqui a miséria e a fome estão à espera de reforços. Um país atolado na maldade, na hipocrisia, na falsidade e na corrupção nunca será democrático. E isso de oposição é pura fantasia. Oposição é rendição. O mais notável é a hipocrisia dessa oposição em relação aos presos políticos. Com esta oposição, não. De qualquer modo acredito na oposição, não acredito nos actuais oposicionistas.
 
“Naturalmente, quando um magistrado era enviado a governar uma província, habitualmente cuidava de que não todo o dinheiro que arrecadava fosse enviado a Roma. Uma parte ficava em suas mãos. Era norma que um funcionário governamental romano a quem se outorgava uma província devia enriquecer-se. Disto se segue que, em geral, as províncias eram mal governadas (nem sempre, por suposto, já que até nos piores tempos há alguns funcionários honestos).” In A República Romana. História Universal de Isaac Asimov. 
 
No Submarino Angola um deputado comentou que devido à crise da corrupção e para prevenir os tumultos dos famintos, o melhor era começar já a andar atrás deles com armas apontadas nas cabeças para evitar o pior.  
 
Outro deputado apoiou e recomendou que nas próximas reuniões o Submarino deveria descer mais, até aos cem metros de profundidade e se necessário descer ainda mais porque o imperialismo nunca desarma, só deseja a escravidão dos povos, o imperialismo é o principal inimigo da socialização, o opressor dos povos, disse com descomunal entusiasmo lembrando-se dos anos dourados da grande revolução que era para durar séculos, milénios, mas não, quem sabe, talvez ainda seja possível. Há que lutar para isso, disse, sonhando com a nostalgia do passado, dos milhares de bandeiras vermelhas com uma estrela no meio, essa estrela sempre cintilante que guia os povos à vitória, à libertação do homem.
 
Todos os caminhos conduzem a Roma. Em Angola todos os caminhos conduzem à corrupção. Famintos de Cabinda ao Cunene a corrupção saúda-vos! Em Angola todos os caminhos conduzem à fome.
 

Brilhante animação brasileira sobre criança refugiada vencedora em Cannes - Assista aqui

Baseada na história real de uma menina de sete anos, esta curta animação de 2 minutos foi produzida com a participação de voluntários brasileiros a pedido da UNICEF, para divulgar e alertar sobre a crise humanitária na Síria e os abusos contra menores de idade.


Esta animação brasileira "Malak e o Barco" foi a grande vencedora da edição 2016 do Festival Internacional de Criatividade de Cannes. O filme, com duração de dois minutos, mostra a batalha enfrentada pela menina síria Malak, de apenas sete anos, que foi sobrevivente de um barco com refugiados que cruzou o Mediterrâneo. 

A animação, baseada em factos reais, foi produzida a pedido da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infancia) e ganhou cinco Leões em Cannes, entre eles o "Grand Prix for Good", que é o prémio máximo do Festival. Ao longo da história apenas sete condecorações como esta foram entregues a campanhas humanitárias. A animação também levou para casa um Leão de um ouro, um de prata e dois de bronze.

O filme faz parte de uma campanha global da Unicef para divulgar e alertar sobre a crise na Síria e os abusos contra refugiados menores de idade. Com a participação de voluntários brasileiros, a animação possui versões em inglês, espanhol e sírio. "A ideia foi reproduzir histórias reais de crianças narradas por elas, no formato de um desenho animado, mostrando que nem todas as situações são apropriadas a elas", afirma Adhemas Batista, diretor de design do filme. Ao todo, outros 10 brasileiros participaram da premiada animação, que foi produzida no Brasil e em Los Angeles, nos Estados Unidos. 

30/06/2016

Indiferença a criança sem abrigo - Sensacional experiência em video da UNICEF

Uma actriz de 6 anos (Anano), foi convidada a circular pelas ruas da Geórgia, nos Estados Unidos, ora bem-vestida, ora com a aparência de uma sem abrigo. O experiência, organizada pela Unicef, tinha como objetivo retratar a diferença de tratamento recebida por esses dois perfis distintos. Esta experiência acabou por ser interronpida quando a pequena Anano começa a ser maltratada enquanto interpretava uma criança pobre.

Em primeiro lugar Anano aparece num local público movimentado, limpa e bem vestida. Depois muda de roupa e surge com roupas velhas e sujas. A mesma coisa acontece em seguida, só que num restaurante. É curioso ver as diferentes formas de agir das pessoas. 

À primeira vista perguntam se ela está perdida ou se precisa de ajuda. Na situação em que parece uma menina de rua, ninguém lhe liga. No restaurante a situação é ainda pior.

Através da experiência social conseguiu perceber-se que quando a criança parecia sem-abrigo foi ignorada por todos, mas quando o seu aspeto era saudável, todos fizeram questão de a ajudar a encontrar os pais. Numa das cenas num restaurante em que Anano aparece como sem abrigo, um homem diz-lhe mesmo: "Vai-te embora! Não te quero ver mais aqui".
 
No final, é a própria criança que fala e admite que se sentiu triste depois de ter assistido à reação das pessoas. A agência responsável pela experiência social fez a sua própria edição onde mostra o final da mesma, em que Anano começou a chorar e teve que ser reconfortada pela equipa.

06/06/2016

Resistência aos antibióticos matará mais do que o cancro

Daqui a três décadas, poderão morrer 10 mil milhões de pessoas por ano devido ao exagero do uso de antibióticos em humanos e animais.

Já vários estudos têm alertado para o excesso de uso de antibióticos, que se reflete no aparecimento de resistências a estes medicamentos e, logo, na sua ineficácia. Mas normalmente a perspetiva é a do cientista. Desta vez, foi um economista a vir chamar a atenção para o problema.
 
A pedido do primeiro-ministro do Reino Unido, Jim O'Neill dedicou dois anos à análise do problema, e a conclusão é pessimista: 10 milhões de mortes anuais, por infeções causadas por bactérias resistentes, e um custo associado de 90 biliões de euros, em 2050, caso não se faça nada. Um dos fatores que contribuem para o aparecimento de resistências (que acontece quando aparecem mutações nas bactérias que lhes permitem escapar ao efeito dos antibióticos) é a utilização generalizada em animais – no Reino Unido, 45% dos antibióticos são para uso animal.
 
“A situação é semelhante em toda a Europa e é muito preocupante”, sublinha a investigadora do Instituto de Tecnologia Química e Biológica Maria Miragaia, que explica a contaminação por via animal: “Algumas bactérias conseguem sobreviver à cozedura, outras passam para as pessoas quando a carne é manuseada em cru.” Em Portugal, o último relatório da Direção-Geral da Saúde aponta para uma diminuição no consumo destes medicamentos, mas a taxa de infeção hospitalar por bactérias resistentes continua elevada. “Corremos o risco de chegar a uma situação pré-descoberta dos antibióticos [sem qualquer tratamento para as infeções]”, compara Maria Miragaia.

 

05/06/2016

Carta aberta às pessoas amarelas

Caras pessoas amarelas,

O que vos faz ir para as ruas é a escola dos filhos de cada um de vós. O que me fez e faz e fará ir para a rua, e até escrever este texto, é a escola de todos os filhos. Nunca foi “a escola do meu filho”. Foi sempre A Escola. Não vos vi por lá nessa altura. Usando o vosso vocabulário, a “escola do meu filho” andava a pagar a “escola dos vossos filhos”.

E aqui não há filhos e enteados. Fazem muito bem em lutar por um futuro melhor para os vossos filhos. Todos fazemos isso, como mães, pais e ainda que não sejamos pais ou mães (não percebem esta de nem sequer ter filhos e de, ainda assim, ter a obrigação de contribuir, pois não?).

Mas tentem ao menos perceber uma cena, a vossa liberdade de escolha (é a terceira vez que digo isto) não equivale a nenhum dever meu.


Acredito na Escola Pública (e não só porque o meu anda numa excelente escola pública). Acredito que o dinheiro até agora desbaratado pelo Estado em escolas privadas (já se deram sequer ao trabalho de perceber o que é “privado”?) vai contribuir, se aproveitado no Ensino Público, para a melhoria deste.

A culpa de não ser já de hoje para amanhã (o que lamento) é toda vossa. Foi demasiado tempo deste fartar vilanagem. Mas a Escola Pública vai compor-se, sim. Assim esta política se mantenha e não trema perante os lobbies amarelos. No entretanto, terão mesmo de arcar sozinhos com os custos desta transição. Porque “essa” escola pública a 500 metros do vosso colégio não tem as condições deste, precisamente por causa do dinheiro que o Estado despejou no Privado, ao invés de alimentar o Ensino Público, que é o único que lhe compete.

O resto é o tal “direito à escolha”. Nunca ninguém colocou em causa o vosso direito, desde que este Governo e maioria parlamentar que o sustenta, resolveu abrir os olhos. Não o transformem é num dever meu. Mais uma coisa. Lá atrás, quando falo de lutar… Não lutámos apenas pela Escola Pública. Mas disso nem vale a pena falar, seria demasiado para as vossas singulares e umbiguistas cabecinhas.

E não, não sou dono da razão, mas pago as minhas escolhas.

Sejam dignos, façam o mesmo. Para além de que estão a fazer uma figurinha tão triste, àquele nível de um tipo sentir vergonha por acções de terceiros. Será mandar pérolas a porcos, o que de seguida digo. Pedir-vos a decência de lutarem pelas crianças, por todos os filhos de todos os pais. Ainda assim aqui fica, e podem juntar o desafio de lutarem também por vós e pelos avós. Mas não é só vós, nem é só os avós dos vossos filhos. Um nó no cérebro, imagino.

Essa luta é transversal à sociedade, esquerda ou direita. Tem a ver com distinguir o justo do injusto.

19/05/2016

A triste geração que ficou escrava da própria carreira

Um texto brutal de Ruth Manus, publicado na Revista Pazes, do qual fizemos uma pequena revisão para português-pt, que retrata de forma nua, crua e fiel a realidade da actual geração de profissionais bem sucedidos.

"E a juventude vai escoando entre os dedos. Era uma vez uma geração que se achava muito livre. Tinha pena dos avós, que casaram cedo e nunca viajaram para a Europa. Tinha pena dos pais, que tiveram que dar o duro em empreguinhos ingratos e suar muitas camisas para pagar a renda, a escola e as viagens em família para pousadas no interior. Tinha pena de todos os que não falavam inglês fluentemente. Era uma vez uma geração que crescia quase bilíngue. Depois vinham noções de francês, italiano, espanhol, alemão, mandarim.

Frequentou as melhores escolas. Entrou nas melhores faculdades. Passou no processo seletivo dos melhores estágios. Foram efetivados. Ficaram orgulhosos, com razão. E veio pós especialização, mestrado, MBA. Os diplomas foram subindo pelas paredes. Era uma vez uma geração que aos 20 ganhava o que não precisava. Aos 25 ganhava o que os pais ganharam aos 45. Aos 30 ganhava o que os pais ganharam na vida toda. Aos 35 ganhava o que os pais nunca sonharam ganhar.

Ninguém os podia deter. A experiência crescia diariamente, a carreira era meteórica, a conta bancária estava cada dia mais bonita. O problema era que o auge estava cada vez mais longe. A meta estava cada vez mais distante. Algo como o burro que persegue a cenoura ou o cão que corre atrás do próprio rabo.

A Parábola da Demissão da Formiga Desmotivada

... e vejam lá se já não viram isto acontecer.

Todos os dias, uma formiga chegava ao escritório da sua empresa e trabalhava árdua e afincadamente. A formiga era produtiva e feliz. Porém, gerente vespa estranhou o facto da formiga trabalhar sem supervisão. Se ela era produtiva sem supervisão, seria ainda mais se fosse supervisionada. E colocou uma barata, que preparava belíssimos relatórios e tinha muita experiência como supervisora.

A primeira preocupação da barata foi a de padronizar o horário de entrada e saída da formiga. Daí, a barata precisou de uma secretária para ajudar a preparar os relatórios, e contratou uma aranha que também organizava os arquivos e controlava as ligações telefónicas.

A vespa ficou encantada com os relatórios da barata e pediu também gráficos com indicadores e análise das tendências que eram mostradas em reuniões. A barata, então, contratou uma mosca, e comprou um computador com uma impressora a cores. 

É nesta altura que a formiga começa a lamentar-se de toda aquela movimentação de papéis e reuniões!

A vespa concluiu que era o momento de criar a função de gestor para a área onde a formiga produtiva e feliz, trabalhava. O cargo foi dado a uma cigarra, que mandou colocar uma carpete no seu escritório e comprar uma cadeira especial ... A nova gestora cigarra achou imediatamente que precisava de um computador e de uma assistente (a pulga, sua assistente na empresa anterior), para ajudá-la a preparar um plano estratégico de melhorias e um controle do orçamento para a área onde trabalhava a formiga, que cada dia se tornava mais enfadada com isto tudo.

A cigarra, então, convenceu a vespa gerente, a fazer uma análise financeira. E a vespa, ao rever o relatório resultante, deu conta de que a unidade na qual a formiga trabalhava já não rendia como anteriormente e contratou a coruja, uma prestigiada consultora, muito famosa e bem paga, para que fizesse um diagnóstico da situação. A coruja permaneceu três meses nos escritórios e emitiu um volumoso relatório, com vários volumes que concluía: Há muita gente nesta empresa!

A formiga, porque andava muito desmotivada e aborrecida, foi despedida.

Autor desconhecido

17/05/2016

A Criminalização do Pensamento

Pensar traz consequências. O seu exercício não tem sido uma capacidade bem vista. Hoje está em perigo de extinção. É significativo que entre os crimes contra a humanidade figure a perseguição ideológica e política.  

Desde o castigo bíblico até aos nossos dias, a acção de pensar é castigada. Duas esferas da realidade política são as mais afectadas: a educação e o jornalismo. 

Em ambas os seus representantes são objecto da ira do poder institucional e da violência. As universidades, em tempos de ditaduras militares ou cívico-militares, sofrem as consequências da criminalização do pensamento. Professores e educadores são perseguidos e assassinados. 

Durante a segunda república em Espanha expulsaram milhares das aulas do magistério e que dizer do México actual. Quanto ao jornalismo mata-se directamente o mensageiro. 

O estudo mais recente da Federação Latino-Americana de Jornalistas destaca que só no México, durante o ano de 2015, foram vitimados 14 informadores. A lista é longa. Honduras apresentou 10 casos, Brasil 8, Colômbia 5 e Guatemala 3. Ao mesmo tempo a Federação Internacional de Jornalistas assinala que de 1990 a 2015 foram contabilizados 2297 assassinatos de jornalistas, nessa lista volta a destacar-se o México com 120 casos, Rússia com 109 e o Brasil com 62.

Todos os dias tomamos conhecimento pelos meios de informação das arbitrariedades do poder político na hora de criminalizar qualquer opinião discordante, sobretudo se nela houver críticas à ordem social ou à violação dos direitos humanos e às forças armadas ou corpos de segurança do estado. Basta que a
polícia emita informações atribuindo a organizações, pessoas ou movimentos sociais acusando-os de propagar ideologias dissolventes para que os seus dirigentes sejam detidos, investigados e feitos prisioneiros. No entanto qualquer um pode fazer um falso testemunho e ganhar credibilidade quando a acusação diz respeito ao pensamento e ideias.

09/05/2016

Colegios Privados, Financiamentos Públicos

A discussão no Parlamento sobre o financiamento do ensino privado é como se fosse uma aula teórica que precisa dos casos concretos das aulas práticas para se entender, de facto, a matéria.

O problema torna-se mais complicado quando Passos Coelho recorre à fantasia política e a manobras de diversão que desviam o debate da questão essencial. 
 
Acontece que dispomos em arquivo de uma “aula prática” bem elucidativa do que está em causa: a reportagem que a jornalista da TVI Ana Leal fez em 2013 e que acabou por ser distinguida com um prémio Gazeta. Fica aqui o “link” para o excelente trabalho de Ana Leal e a expectativa de que a TVI se lembre de o trazer de novo ao écrã.



A TVI emitiu no dia 4 uma reportagem sobre o escândalo da construção desordenada e financiamento público de colégios privados, um sorvedouro de dezenas de milhões de euros do erário público em detrimento de escolas do Estado. É uma peça jornalística exemplar. “Verdade inconveniente” lhe chamou a TVI. Inconveniente para o governo e para o desgoverno de que é cúmplice. Indispensável para se ter uma noção exacta do que é o cheque-ensino. 

» Uma certa liberdade de escolha (Isaura Reis)
» Crónica de Fernando Alves
» Verdade Inconveniente – Reportagem de Ana Leal

12/04/2016

A minha identificação? Sou uma mulher síria (um depoimento incrível)

Hanady Alkhatib, jornalista síria que foi obrigada a abandonar a Síria por temer represálias do regime de Assad, vivendo atualmente no Dubai, escreveu um texto em abril do ano passado em que fala sobre a dor de perder tudo - de perder o filho, o marido, o pai, a mãe. 

Sobre a dor de ter de identificar os restos mortais dos homens da sua família, assassinados por terroristas ou pelo regime, não menos terrorista do que os terroristas. 

Sobre a dor de viver em permanente estado de culpa, sentindo-se permanentemente culpada por estar viva. Sobre a dor de viver enquanto muitos estão a morrer. Sobre a dor, crónica, de ser síria nos dias que correm. 

A minha identificação? Sou uma mulher síria
 
O mundo vira-me as costas pela enésima vez. Sou a mulher síria que teve de identificar o seu irmão através de uma série de fotografias tiradas à socapa do matadouro de Assad. Entrei em contacto muitas vezes com a Rede Síria para os Direitos Humanos [SNHR na sigla em inglês] para saber se tinham informações sobre o meu irmão, mas a resposta que me davam era sempre a mesma. “Não temos novidades”. O meu coração parecia sufocar de cada vez que ligava para lá. Ontem, enviei-lhes uma fotografia pelo telemóvel daquilo que em tempos fora um ser humano. “Este é o meu irmão”, escrevi.

10/02/2016

Sobre o Fenómeno dos Empregos de Merda, por David Graeber

Nos últimos anos na Europa e nos Estados Unidos o horário de trabalho tem vindo a aumentar. 

Em Portugal a jornada de trabalho para a Função Pública amentou das 35 para as 40 horas perante a passividade quase total dos sindicatos oficiais. Em Espanha, a CNT e a CGT reivindicam há muito as 30 horas semanais. 

Há pouco mais de 80 anos os economistas acreditavam que na viragem do século XX para o XXI, devido aos progressos tecnológicos (que continuam a verificar-se) o tempo de trabalho diário não ultrapassaria as 3 ou as 4 horas. O antropólogo anarquista e membro do Occupy Wall Street, David Graeber, explica a inutilidade dos empregos (e dos trabalhos) de merda criados nas últimas décadas. Que só servem para nos prender aos locais de trabalho, não para produzir ou fazer quaisquer trabalhos socialmente relevantes.

03/02/2016

"Estudo" encomendado pela Coca-Cola e Pepsi: Refrigerantes mais saudáveis que água

E quando pensavamos que já tinhamos visto tudo por parte deste tipo de empresas, 
eis que somos surpreendidos mais uma vez ...
Um novo estudo alegando que as bebidas dieta podem ser mais benéficas para a perda de peso do que a água foi financiado pela Coca-Cola, Pepsi e outros conglomerados de refrigerantes. A análise, publicada em Novembro no International Journal of Obesity (Periódico Internacional da Obesidade) por um professor da Universidade de Bristol, concluiu que os adoçantes de baixa energia (LES) no lugar do açúcar "em crianças e adultos, leva à redução de IE (Ingestão Energética) e BW (peso) e possivelmente também quando comparado com água."
O estudo, "uma revisão sistemática", intitulado, "Consumo de adoçante de baixa energia afecta o consumo de energia e o peso?" revelou que foi parcialmente financiado pelo International Life Sciences Institute-Europe (ILSI) – Instituto Internacional das Ciências da Vida - Europa. Embora o nome pareça neutro — e da sua diretoria incluir cientistas qualificados — as posições dos outros membros do conselho sugerem segundas intenções. Membros vindos da Nestlé, da Mars, Unilever, Pepsi e Coca-Cola servem no conselho de administração da ILSI. Além disso, esses directores elegem oficiais do conselho, onde três do total de cinco oficiais, representam as corporações.

DONALD TRUMP - O Messias do Admirável Mundo Novo

Estou plenamente convencido que a "função" deste psicopata é tornar ideias bélicas, ideias de repressão, de retrocesso de direitos civís, ódio e criação artificial mediática de inimigos ... algo mais corrente e mainstream. 
 
Mesmo que não seja eleito, este papagaio colocou na opinião pública ideias e discursos que nos fazem lembrar personagens da História como Adolf Hitler (e não estou a exagerar, comparem vocês mesmos).

 
 
 
Ter alguém deste "nível" como comandante supremo da maior máquina militar do mundo, ou encarregue de armas nucleares, forças policiais, programas governamentais de espionagem maciça sobre a população como Edward Snowden tornou público, assim como de mais uma série de coisas que não nos contam ... é verdadeiramente assustador.

Mesmo que não seja o próximo Presidente dos Estados Unidos, os "verdadeiros donos disto tudo" a nível mundial, a quem este personagem presta contas, deram-nos um pouco da sua visão do que pretendem para as décadas seguintes.

Muito cuidado.
Nada nesta campanha presidencial é acaso.

A Desumanização do Humano

Acordo sempre bem cedo e, por força da necessidade de me ver integrada ao mundo em que vivo, ligo a tv e abro o notebook, enquanto a água ferve para o café da manhã:

Milhares de crianças na Nigéria foram mortas, raptadas ou expostas a violência inimaginável (nota da Unicef).” Mudo de site: “Mulher tem os olhos perfurados pelo marido durante discussão do casal”. 


Outro site notícia: “Adolescente é apedrejado por populares após ser pego ao tentar furtar um  aparelho celular”. Abro o Facebook: “Carta aberta de Mia Couto ao Presidente da África do Sul sobre o genocídio de moçambicanos naquele país”. Na tv: “Naufrágio no mediterrâneo pode ter causado centenas de mortes de imigrantes”.

Ainda sem conseguir mensurar a quantidade de dor a que fui exposta logo no início do dia, resolvo, já com olhos embaçados e voz embargada, comprar o meu pão. A caminho da padaria, deparo-me com uma senhora que dorme na calçada abraçada a uma criança, ambas cobertas por um imundo cobertor. Como se não bastasse a cena em si, um senhor bem vestido e seguramente muito apressado quase nelas tropeça e reverbera: “Desgraça! Trabalhar não quer, não… Fica aí entulhando a rua”.

05/01/2016

O público não quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade ... Fernando Pessoa

Sucede que tenho precisamente aquelas qualidades que são negativas para fins de influir, de qualquer modo que seja, na generalidade de um ambiente social. Sou, em primeiro lugar, um raciocinador, e, o que é pior, um raciocinador minucioso e analítico. Ora o público não é capaz de seguir um raciocínio, e o público não é capaz de prestar atenção a uma análise

Sou, em segundo lugar, um analisador que busca, quanto em si cabe, descobrir a verdade. Ora o público não quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade. Acresce que a verdade — em tudo, e mormente em coisas sociais — é sempre complexa. Ora o público não compreende ideias complexas. É preciso dar-lhe só ideias simples, generalidades vagas, isto é, mentiras, ainda que partindo de verdades; pois dar como simples o que é complexo, dar sem distinção o que cumpre distinguir, ser geral onde importa particularizar, para definir, e ser vago em matéria onde o que vale é a precisão — tudo isto importa em mentir.

Sou, em terceiro lugar, e por isso mesmo que busco a verdade, tão imparcial quanto em mim cabe ser. Ora o público, movido intimamente por sentimentos e não por ideias, é organicamente parcial. Não só portanto lhe desagrada ou não interessa, por estranho à sua índole, o mesmo tom da imparcialidade, mas ainda mais o agrava o que de concessões, de restrições, de distinções é preciso usar para ser imparcial. Entre nós, por exemplo, e em a maioria dos povos do sul de Europa, ou se é católico, ou se é anti-católico, ou se é indiferente ao catolicismo, porque a tudo. Se eu, portanto, fizesse um estudo sobre o catolicismo, onde forçosamente teria que dizer mal e bem, que apontar vantagens misturadas com desvantagens, que indicar defeitos aliviados por virtudes, que me sucederia?