Durante anos, Sandy Springs, na Geórgia, foi uma espécie de Santo Graal das privatizações. Quem acreditava que o Estado era uma doença e o privado o antibiótico apontava para a cidade e dizia: vejam. Quase todos os serviços municipais foram entregues a empresas, pouca administração própria e, aparentemente, tudo a funcionar maravilhosamente. O caso apareceu em livros, conferências e artigos como quem exibe finalmente a prova que faltava. O debate podia encerrar, pensava-se. A História, como é costume, não foi informada.
Sandy Springs já existia enquanto comunidade e recebia os serviços públicos através do condado de Fulton. O que aconteceu em 2005 foi a criação do município autónomo. A nova Câmara precisava, portanto, de construir uma administração praticamente de raiz e decidiu contratar empresas para assegurar grande parte dela: obras públicas, urbanismo, finanças, informática, comunicações, parques, recreação e várias outras funções. Polícia e bombeiros ficaram públicos, mas esse pormenor tinha pouco valor publicitário. “Privatizou quase tudo” cabia melhor num título.
Oliver Porter, um dos arquitectos do modelo, contou mais tarde que houve um verdadeiro selling job junto das empresas. Sandy Springs seria uma montra: quem conseguisse pôr aquela cidade a funcionar poderia depois vender o modelo a muitas outras. A Reason Foundation, um dos principais centros de promoção das privatizações nos Estados Unidos, ajudou alegremente à divulgação. E assim uma opção concreta tomada por uma autarquia recém-criada foi promovida a descoberta de uma nova lei económica. Newton teve a maçã; os libertários tiveram Sandy Springs.
O primeiro problema surgiu relativamente cedo. Em 2011, a cidade percebeu que manter todos os serviços concentrados num único grande fornecedor lhe custaria cerca de 7 milhões de dólares por ano a mais do que considerava razoável. O modelo foi alterado e os contratos divididos entre várias empresas. Era apenas a primeira pequena dificuldade do sistema que tinha sido apresentado como solução para as dificuldades dos outros sistemas.
Depois vieram coisas ainda menos adequadas a uma brochura: falta de transparência financeira, rotação elevada de trabalhadores, indicadores de desempenho pouco claros ou inexistentes, empresas sem conhecimento suficiente para certas funções municipais e concursos que tinham de ser refeitos periodicamente para departamentos inteiros. O próprio Porter chegou a descrever a operação dos prestadores como uma espécie de “caixa-preta”. A cidade pagava pelo resultado e não precisava necessariamente de conhecer em detalhe o que se passava lá dentro. É uma maneira engenhosa de resolver o problema da transparência: deixa-se de a considerar um problema.
Apesar disso, Sandy Springs continuou durante anos a ser citada como prova da superioridade do privado. É uma das vantagens dos exemplos ideológicos: depois de adquirirem fama, os factos posteriores tornam-se quase uma impertinência.
Até que, em 2019, a Câmara voltou a pedir propostas às empresas e teve a ideia, algo irresponsável, de comparar os preços com o custo de prestar directamente os mesmos serviços. Descobriu que manter os privados custaria cerca de mais 2,7 milhões de dólares por ano para obter uma qualidade equivalente. Rusty Paul, presidente da Câmara, explicou que a diferença simplesmente não era justificável. Não houve conversão ao socialismo, ninguém nacionalizou as mercearias e Marx continuou tranquilamente morto. Fizeram contas.
A maioria dos serviços passou então para gestão directa e cerca de 183 postos de trabalho transitaram das empresas contratadas para o município. Obras públicas, urbanismo, tecnologias de informação, finanças, desenvolvimento económico, comunicações, instalações municipais, operações do centro de artes, tribunal municipal, parques e recreação ficaram sob gestão da própria cidade. A previsão era poupar mais de 14 milhões de dólares em cinco anos.
Na altura ainda houve quem previsse o regresso do temível “pântano burocrático”. Oliver Porter duvidou das poupanças. Era uma preocupação compreensível: depois de passar anos a explicar ao mundo que o privado era mais barato, seria desagradável descobrir que não era.
Em 2025 chegou a conta final, que nestas matérias tem o inconveniente de ser mais difícil de discutir do que uma opinião. Segundo a própria Câmara de Sandy Springs, as iniciativas de internalização tinham permitido poupar quase 26 milhões de dólares. Tinham previsto catorze. Pouparam quase vinte e seis. O pântano burocrático revelou, afinal, uma preocupante aptidão para a contabilidade.
Sandy Springs não deixou de contratar empresas privadas. Continua a fazê-lo em algumas áreas e hoje funciona num modelo híbrido. A diferença é bastante mais interessante: deixou de partir do princípio de que uma empresa é necessariamente mais eficiente por ter accionistas em vez de funcionários públicos. Compara custos, qualidade e necessidades e escolhe. Parece banal, mas é exactamente essa banalidade que estraga a lenda.
E há um último pormenor. Sandy Springs recebeu visitantes estrangeiros, foi promovida internacionalmente e apresentada como modelo do futuro. Em 2019, uma investigação não conseguiu encontrar uma única cidade estrangeira que tivesse adoptado integralmente o sistema. Um dos poucos estudos académicos sobre o caso encontrou, ainda por cima, indicadores em que Sandy Springs era menos eficiente do que municípios vizinhos. O modelo universal teve alguma dificuldade em sair de casa.
Durante anos mandaram-nos olhar para Sandy Springs para perceber como funcionavam as privatizações. Tinham razão, convém olhar. Mas até ao fim.
