Há negócios extraordinários. Depois há a banca. Nos primeiros seis meses do ano, os cinco maiores bancos a operar em Portugal lucraram 2,4 mil milhões de euros. Parece um número impressionante, mas continua demasiado grande para ser compreendido. Convém traduzi-lo: 562 mil euros por hora. Quase 9.400 euros por minuto. Cerca de 2.350 euros a cada 15 segundos. Se preferirem uma unidade de medida mais portuguesa, enquanto um cliente espera pela sua vez na agência durante quinze minutos, os bancos acabam de ganhar cerca de 140 mil euros.
É difícil não admirar um modelo de negócio destes. Quanto mais caras ficam as casas, mais crédito é concedido. Quanto mais crédito é concedido, mais juros entram. Quando os juros começam a descer, aumentam as comissões. Se as comissões não chegarem, inventa-se uma nova. É um sistema com uma qualidade rara: aconteça o que acontecer, há sempre uma maneira de o cliente financiar o bom desempenho do banco.
Depois lemos os relatórios e descobrimos que as receitas de comissões continuam a crescer. O BCP aumentou-as 5%. O BPI 8%. A Caixa também arrecadou mais milhões. É uma evolução notável. Há empresas que vivem de vender produtos. A banca descobriu que é muito mais rentável vender a experiência de ter uma conta bancária.
Entretanto, continua a dizer-se às famílias que é preciso contenção, prudência e responsabilidade financeira. Aos bancos ninguém pede contenção. Pede-se apenas que continuem a apresentar lucros robustos. Quando uma família perde 200 euros por mês, chama-se vida. Quando um banco deixa de ganhar 200 milhões, chama-se ameaça à estabilidade financeira.
É uma definição de estabilidade muito interessante: consiste em garantir que o cliente aguenta tudo e o banco não aguenta nada.
No fundo, a banca portuguesa conseguiu um feito extraordinário. Convenceu-nos de que guardar o nosso dinheiro é um favor que nos faz. E, como todos os favores, cobra-se. Depois cobra-se por transferir o dinheiro. Cobra-se por levantar o dinheiro. Cobra-se por manter o dinheiro. Falta apenas cobrar uma comissão por olhar para o saldo. Dando tempo ao tempo, não excluiria essa possibilidade. Afinal, quando um sector consegue ganhar 562 mil euros por hora, é sinal de que ainda encontrou poucas coisas gratuitas.
