09/09/2026

Durão Barroso em 2002

Em 2002, Durão Barroso explicou aos portugueses que «a liberalização do preço dos combustíveis até final do ano teria como efeito previsível uma descida dos preços» e acrescentou: «A concorrência normalmente funciona a favor do consumidor.» É uma frase muito bem protegida. Tem um «previsível» e um «normalmente», que são uma espécie de seguro contra a realidade. Se os preços não baixassem, a descida tinha sido apenas previsível. Se a concorrência não favorecesse o consumidor, devia ser um daqueles dias em que funciona anormalmente. Acontece. Às vezes durante vinte e dois anos seguidos.

A liberalização entrou em vigor em Janeiro de 2004 e os combustíveis deixaram de estar sujeitos ao regime de preços máximos. No final desse mesmo ano, a gasolina tinha subido 10% e o gasóleo 25%. 

Talvez tenha havido apenas um problema de comunicação: o Governo dizia que ia libertar os preços para eles descerem, mas os preços ouviram apenas a parte em que iam ser libertados e começaram imediatamente a explorar a nova autonomia.

Entretanto, ficámos esta semana a saber que a Galp teve lucros de 812 milhões de euros no primeiro semestre de 2026, mais 44% do que no mesmo período do ano anterior. A margem de refinação passou de 5,9 para 15,8 dólares por barril e o resultado operacional da área comercial aumentou 21%, para 197 milhões de euros. 

A administração propõe agora aumentar o dividendo. Portanto, a concorrência está efectivamente a funcionar. Resta saber a favor de que consumidor.

Se Durão Barroso estava a falar do automobilista que põe vinte euros e recebe combustível suficiente para deslocar o ponteiro com alguma timidez, a previsão teve alguns problemas. Se estava a falar do consumidor de dividendos, foi de uma precisão impressionante. Talvez o erro tenha sido nosso. Ouvimos «a favor do consumidor» e julgámos que consumidor era quem comprava gasolina. Nestas reformas, a frase costuma ser dirigida a toda a gente, mas o benefício tem lista de convidados.