09/09/2026

Melhor negócio do que a saúde? Só o do armamento.

Em 18 de Abril de 2007, Isabel Vaz deixou uma das frases mais sinceras alguma vez proferidas por uma figura de topo da saúde privada portuguesa:

"Melhor negócio do que a saúde? Só o do armamento."

A frase tem uma característica rara: quanto mais tempo passa, mais difícil se torna discordar dela.

Não estamos a falar de uma pessoa crítica ao sector. Não estamos a falar de alguém que observa a saúde privada à distância. Estamos a falar da mulher que lidera há décadas um dos maiores grupos privados de saúde do país e que, em 2026, recebeu a Medalha de Ouro do Ministério da Saúde pelos serviços prestados ao sector.

Talvez por isso valha a pena escutá-la.

Durante anos, os portugueses ouviram que a saúde privada prospera graças à eficiência, à inovação, à gestão profissional e à concorrência. Tudo isso pode ser verdade. O que raramente entra na conversa é o papel que o dinheiro público desempenha neste modelo.


Quando se fala dos grandes grupos privados de saúde, fala-se dos hospitais, das clínicas, da tecnologia, da rapidez das consultas e dos resultados financeiros. Fala-se menos das convenções, da ADSE, dos contratos públicos, das parcerias público-privadas e de todas as formas através das quais o Estado transfere recursos para o sector.

Em suma, fala-se muito do mercado e pouco do contribuinte. E, no entanto, o contribuinte está presente em praticamente todas as etapas da história.


Os portugueses financiam o SNS através dos seus impostos. Muitos pagam ainda seguros de saúde para terem acesso a uma alternativa ao sistema que já ajudaram a financiar. E quando recorrem a essa alternativa, muitas das vezes voltam a pagar consultas, exames, tratamentos, franquias ou co- pagamentos.

É um modelo admirável.

O cidadão financia o sistema público, financia a alternativa ao sistema público e, no fim, financia novamente a utilização dessa alternativa.

Entretanto, os grupos privados crescem, expandem-se, empregam milhares de profissionais e apresentam resultados que fariam inveja à maioria dos sectores da economia.

E ainda bem.

Ninguém questiona a importância dos médicos, enfermeiros, técnicos, auxiliares e restantes profissionais que garantem diariamente o funcionamento destas unidades. Prestam um serviço essencial e merecem reconhecimento por isso.

A questão é outra.

Quando ouvimos falar dos lucros da saúde privada, porque quase nunca ouvimos falar da enorme quantidade de dinheiro público que ajuda a alimentar esse negócio?

Porque razão se fala tanto das virtudes do mercado e tão pouco da relação profunda que o sector mantém com o Estado?

Talvez porque certas histórias funcionem melhor quando são contadas apenas pela metade.

Curiosamente, a própria Isabel Vaz continua a defender mecanismos semelhantes aos das PPP e a criticar a ausência de controlo sobre os milhares de milhões de euros que o Estado injecta anualmente no sistema de saúde.

Talvez porque conhece o sistema demasiado bem.

Talvez porque compreende melhor do que ninguém, onde termina o público e onde começa o privado.

Ou talvez porque, passados quase vinte anos, aquela frase continue a soar menos como uma opinião e mais como uma descrição.

"Melhor negócio do que a saúde? Só o do armamento."

A entrevista existe e a frase foi realmente dita. Não é preciso acreditar em interpretações, comentários ou opiniões de terceiros.

Ouçam a própria Isabel Vaz.
https://youtu.be/3DNXTqit6Zk?si=Z85oGanEy2dG9_7Z