Há dois dias publicámos um texto sobre a inauguração da nova Escola Secundária de Cascais. Chamou-nos particularmente a atenção o espectáculo de uma escola pública e laica ser benzida por D. Rui Valério, Patriarca de Lisboa, perante o Presidente da República, o primeiro-ministro, o ministro da Educação e o presidente da Câmara. O Estado é laico, mas, pelos vistos, ninguém quis arriscar uma inauguração sem cobertura divina.
Nos comentários, algumas pessoas escreveram que a cerimónia tinha custado 200 mil euros. Fomos pesquisar no Portal BASE, onde encontrámos publicado o contrato celebrado pelo Município de Cascais para a concepção, produção e realização dos eventos da inauguração. E há uma correcção a fazer. Não foram 200 mil euros. Foram apenas 175.512,94 euros, com IVA. Menos 24 mil e uns trocos.
Retiramos, portanto, tudo o que pensámos sobre os 200 mil e passamos a pensar exactamente o mesmo sobre os 175 mil. O valor contratual publicado é de 142.693,45 euros sem IVA.
Convém também mencionar outra coisa. Os 175 mil euros não dizem respeito apenas à cerimónia oficial de 21 de Setembro. O contrato abrangeu dois eventos relacionados com a inauguração da escola: o Open Day de 5 de Setembro e a inauguração oficial. Feita a precisão, continuamos onde estávamos: 175.512,94 euros para assinalar a abertura de uma escola secundária. E podia ter sido pior. O preço-base do concurso era de 185.315,60 euros sem IVA, cerca de 228 mil com IVA. Vistas as coisas por este prisma, talvez ainda nos venham explicar que poupámos dinheiro.
O caderno de encargos ajuda a perceber como se chega a estes valores. Havia seis horas de DJ, três artistas, um coreógrafo, uma equipa de decoração, três ecrãs, um deles com 56 metros quadrados, uma passarela e seguranças para guardar o material durante a montagem e desmontagem. Não sabemos exactamente em que momento a inauguração de uma escola secundária passou a exigir uma produção desta natureza, mas aparentemente abrir os portões e mostrar as novas instalações já não produz o impacto mediático de outros tempos.
Há, aliás, um pormenor que torna tudo isto ainda mais requintado: as obras não estão sequer acabadas. Está concluída a primeira fase, que permitiu abrir a escola, mas falta a segunda, com a demolição das antigas instalações, o novo pavilhão desportivo e os arranjos exteriores. Ou seja, houve alguma contenção. Não se acabou a obra toda de uma vez. Na inauguração é que não convinha poupar nem atrasar.
E talvez seja essa a parte mais difícil de engolir. A Escola Secundária de Cascais esperou mais de 50 anos por instalações definitivas. Alunos, professores, funcionários e famílias passaram décadas numa escola que nascera provisória. Quando finalmente chegou o novo edifício, ainda incompleto, conseguiu-se arranjar 175.512,94 euros para dois eventos destinados a assinalar a sua abertura. Há uma espécie de talento administrativo nisto: esperar meio século pelo essencial e, quando ele finalmente chega, descobrir uma urgência extraordinária no acessório.
A explicação é o PRR. Para projectos desta dimensão é exigida uma actividade de comunicação com impacto mediático. O que se compreende. Quem financia uma obra pública tem todo o direito de exigir que se diga onde foi aplicado o dinheiro. O salto entre essa obrigação e seis horas de DJ, três artistas, um coreógrafo, uma passarela e um ecrã de 56 metros quadrados é que já exige capacidades intelectuais que não possuímos. O regulamento pede comunicação. A interpretação foi generosa.
Talvez seja uma nova disciplina do currículo: Educação Financeira Aplicada à Administração Pública. Primeira lição: uma escola pode ficar por acabar. A inauguração é que não pode ficar por festejar.
