Numa publicação anterior falámos dos preços de inaladores nos Estados Unidos e na Europa.
Números numa tabela impressionam, mas continuam a ser números.
Agora vejamos como isto funciona quando há uma pessoa do outro lado.
Usava diariamente o Advair Diskus para manter a doença controlada e, com o seguro de saúde, pagava menos de 70 dólares pelo medicamento. A 10 de Janeiro de 2024 foi à farmácia levantar o inalador, como fazia habitualmente. Só que entretanto o seu plano tinha deixado de o cobrir.
O preço que lhe apresentaram foi de 539,19 dólares. Cole não tinha esse dinheiro. Segundo a família, fez uma escolha que ninguém devia ter de fazer: pagou a renda e saiu da farmácia sem o inalador.
Tinha seguro de saúde. Tinha receita médica. Tinha uma doença diagnosticada e um tratamento que fazia há anos. Não lhe faltava responsabilidade nem vontade de se tratar.
Bastou uma alteração na lista de medicamentos cobertos pelo plano para aquilo que lhe custava menos de 70 dólares passar a custar 539.
Cinco dias depois sofreu uma crise de asma gravíssima. O colega de casa levou-o para o hospital, mas Cole chegou inconsciente e sem pulso. Foi reanimado, permaneceu seis dias ligado a um ventilador e nunca recuperou a consciência. Morreu a 21 de Janeiro de 2024. Tinha 22 anos. Cole teve uma escolha. A renda ou o medicamento que o ajudava a respirar. Escolheu a renda. Cinco dias depois entrou num hospital e nunca mais acordou.
É este tipo de casos que também tem de estar em cima da mesa quando se discute aproximar Portugal de modelos de saúde mais dependentes de seguros privados e de intermediários na compra de medicamentos. Não basta falar em “escolha”, “concorrência” e “mercado” como se estivéssemos a escolher uma operadora de telemóvel.
O Post anterior:
Em 2024, numa investigação da Comissão HELP do Senado norte-americano ao preço dos inaladores, apareceu este pequeno monumento às maravilhas do mercado: o Combivent Respimat, da Boehringer Ingelheim, custava 497 dólares nos Estados Unidos e 7 dólares em França. Não estamos a comparar medicamentos parecidos. É o mesmo inalador, do mesmo fabricante.
Claro que nem todos os americanos pagam os 497 dólares do próprio bolso. Há seguros, descontos e programas de apoio pelo meio. Mas o preço está lá.
Claro que nem todos os americanos pagam os 497 dólares do próprio bolso. Há seguros, descontos e programas de apoio pelo meio. Mas o preço está lá.
E é difícil explicar como é que um medicamento atravessa o Atlântico e fica dezenas de vezes mais caro sem começar a fazer perguntas incómodas sobre um sistema de saúde onde há demasiada gente a ganhar dinheiro entre quem fabrica o medicamento e quem precisa dele.
Na América é que é bom.
Na América é que é bom.

