09/10/2026

A Maricarmen que vá morrer longe

É exatamente isto que os fundos de investimento e os políticos sussurram ao ouvido de quem vive nas grandes cidades. Em Madrid, a velha expressão portuguesa deixou de ser uma força de expressão. Virou uma sentença de morte real.


Maricarmen Abascal tinha 87 anos e vivia na mesma casa desde a adolescência. Para o fundo imobiliário que comprou o prédio, a sua história de vida resumia-se a uma linha numa folha de Excel. A renda subiu de 500 para 2.650 euros — um valor que engolia mais do que o dobro da sua reforma. Como não podia pagar, a polícia arrombou-lhe a porta e tirou-a á força de casa numa maca. 

O corpo não aguentou o choque e a humilhação do exílio forçado. Morreu dias depois no hospital. Eu argumentaria que Maricarmen foi assassinada no dia que foi arrancada de casa.

Para os tecnocratas, isto são apenas "efeitos colaterais da macroeconomia". Para os governantes, são estatísticas discutidas em gabinetes frios, justificadas em nome do PIB e da atração de capital.

Nos corredores, nas reuniões por zoom, nas administrações, a habitação é um ativo financeiro. As Maricarmens todas de Madrid podem ir morrer longe.

Mas para nós, a habitação é a nossa vida, e a nossa vida é um assunto bem pessoal.

O que aconteceu em Madrid é o espelho exato do que acontece também nas maiores cidades portuguesas. Quando um idoso é corrido de um bairro histórico para dar lugar a mais um alojamento de luxo, ou quando um jovem percebe que a totalidade do seu salário mal chega para pagar um T1 na periferia, o ecossistema das cidades é destruído e as prioridades de uma sociedade que se diz em telejornais e debates televisivos como evoluída são completamente subvertidos

Está aí uma revolução cultural vinda das elites. As cidades estão a ser desenhadas para clientes, investidores, turistas e pseudo unicórnios, não para cidadãos. Quem não consegue acompanhar a inflação imobiliária é empurrado para além das margens, invisível. E tu, tal e qual a Maricarmen, que vás morrer longe.

Escondem-se também atrás da fraude estatística do "salário médio" para mascarar o abismo. O salário médio em Portugal (1.835 € brutos), é uma miragem inflacionada por gestores e quadros de topo; a realidade crua da esmagadora maioria é o salário mediano (1.000 € a 1.050 € brutos), colado ao salário mínimo nacional (920 € brutos). É com essa carteira vazia que as pessoas enfrentam um mercado demente, onde pedir 1.200 euros por mês por um apartamento com mais de 50 anos e meros 60 metros quadrados na periferia de Lisboa já não soa a estranho.

Regressámos ao feudalismo. O cidadão comum trabalha única e exclusivamente para pagar o feudo ao senhorio, ao investidor, ao fundo, ao raio que o parta, sem nunca ser dono de nada, condenado a uma subsistência que serve apenas para enriquecer terceiros. Quem não queira ou não possa, tal e qual a Maricarmen, que vá morrer longe.

Quem tenta fugir ao pesadelo do arrendamento e decide comprar casa própria cai exatamente na mesma armadilha. Compra-se tijolo a preço de ouro, numa sobrevalorização absurda alimentada pela especulação. E se a vida corre mal? Se os juros sobem ou o desemprego bate à porta? E a doença? O sistema já está desenhado: o único que é sempre salvo é o banco.

Os contribuintes portugueses gastaram mais de 30 mil milhões de euros de dinheiros públicos para resgatar e estabilizar a banca desde o início da crise financeira em 2008, aproximadamente 3.000 € por cada português residente em território nacional fosse adulto ou criança na altura. Estes foram os mesmos bancos que despejaram milhares de pessoas das suas casas. O banco fica com o imóvel, o fundo imobiliário absorve o património, e a família que lá habitava perde as poupanças de uma vida (se as tiver) e é atirada para a rua, e condenada à dívida e à pobreza. Essa família, tal como a Maricarmen… que vá morrer longe.

Para piorar, o cenário que se avizinha com as novas leis do arrendamento que querem aprovar é de puro terror social. Facilitar e simplificar os despejos e a subida de rendas parece ser a grande prioridade sem discutir o problema ou tomar medidas de fundo. Era bom que, do outro lado, também fosse mais fácil e simples pagar as rendas ao fim do mês. Mas não. A corda parte sempre do mesmo lado.

A hipocrisia é de tal ordem que, num país onde a maior parte da população urbana é asfixiada por rendas, prestações de crédito à habitação e juros, o próprio Estado considera que uma renda de 2.300 euros por mês goza de estatuto fiscal de "renda moderada" para quem a recebe. Este é o país onde dezenas de milhares de unidades habitacionais ficam vazias pelo Algarve e pela Costa Portuguesa. Não estamos a falar de apropriações. Estamos a apontar o que é um indicador claro das prioridades do país.

E tu? Tal e qual como a Maricarmen … vai morrer longe, bem longe dos centros urbanos remodelados para postal turístico. Aparece apenas para lhes servir os cafés, para lhes limpares as ruas, fazer a segurança deles, entregar-lhes a comida em casa, abrir-lhes a porta ou tirar a imperial fresquinha. De resto … Vai morrer longe.

Nem mais uma Maricarmen.
Nem em Madrid, nem em Portugal, nem em lado nenhum. 

RiseUp Portugal