09/09/2026

Quem são os verdadeiros subsidio dependentes?

O Mito da Subsidiodependência:

Quem São os Verdadeiros Dependentes do Estado?

O debate público em Portugal é ciclicamente inundado por uma narrativa moralista: a ideia de que o país está paralisado por uma suposta "subsidiodependência" das franjas mais vulneráveis da população. Estigmatizam-se os beneficiários do Rendimento Social de Inserção (RSI) ou do abono de família como se fossem um fardo financeiro insustentável.

Contudo, uma análise fria aos números oficiais do Orçamento do Estado revela que a verdadeira dependência de subsídios não mora nos bairros sociais, mas sim nos conselhos de administração dos grandes grupos económicos.


A Ilusão dos Números: Onde Gasta o Estado?

Os dados do próprio infográfico orçamental destroem qualquer preconceito ideológico através da matemática pura: O "Custo" da Pobreza: Os apoios sociais não contributivos (que incluem as pensões sociais, abono de família e as prestações de inclusão/RSI) representam uma média anual de 3,7 mil milhões de euros (apenas 0,7% do PIB).

O "Custo" do Capital: Do outro lado da balança, os benefícios fiscais e apoios diretos ao capital (empresas, investidores e o setor financeiro/imobiliário) ascendem a uma média anual de 19,4 mil milhões de euros (3,6% do PIB).

O Estado português canaliza 5,3 vezes mais recursos públicos para aliviar e injetar capital em estruturas corporativas do que para resgatar cidadãos da pobreza extrema. Enquanto o apoio social às famílias é tratado com escrutínio milimétrico, as borlas fiscais e os resgates ao grande capital operam sob o rótulo de "estímulos ao investimento".

Casos Chocantes: O Socialismo para os Ricos

Se a subsidiodependência significa viver à custa do dinheiro dos contribuintes, Portugal acumulou nas últimas décadas exemplos claros onde os prejuízos privados foram socializados, transformando grandes grupos económicos nos maiores beneficiários de assistência social do país.

1. A Concentração dos Benefícios Fiscais

Enquanto o cidadão comum enfrenta uma das cargas fiscais sobre o trabalho mais elevadas da Europa, os dados divulgados pela Autoridade Tributária revelam uma assimetria gritante: apenas 20 grandes grupos empresariais (focados sobretudo em setores de grande faturação como o automóvel) absorvem cerca de 16,5% de todo o bolo de benefícios fiscais concedidos em IRC pelo Estado. Isto significa que mais de 500 milhões de euros deixam de entrar nos cofres públicos para beneficiar uma elite corporativa hiperconcentrada.

2. O Escândalo da Parceria Público-Privada e os Resgates Rodoviários

As Parcerias Público-Privadas (PPP) rodoviárias servem frequentemente como o exemplo perfeito de transferência de risco do privado para o público. Mesmo em anos de crises económicas em que o tráfego automóvel colapsou, cláusulas contratuais blindadas forçaram o Estado a pagar centenas de milhões de euros anuais em "compensações financeiras" a consórcios construtores para garantir as suas margens de lucro líquido estimadas. É o capitalismo sem risco: o lucro é privado, mas a garantia de receita é pública.

3. Os Resgates Bancários e o Fundo de Resolução

O exemplo mais devastador da dependência corporativa foi a fatura deixada pelo setor bancário. O caso do Novo Banco e o mecanismo de capitalização contingente acionado através do Fundo de Resolução injetou milhares de milhões de euros públicos para cobrir imparidades e ativos tóxicos da instituição. O dinheiro canalizado para tapar buracos de má gestão bancária num único ano superou muitas vezes o orçamento anual acumulado com o RSI de todo o país.

Conclusão: Inverter a Narrativa

Rotular o mais pobre de "subsídio-dependente" é um truque de retórica política que serve para desviar as atenções do verdadeiro dreno de recursos públicos. Quem depende criticamente da intervenção, da proteção e da benevolência financeira do Estado não é a família que tenta sobreviver com um abono de subsistência. São os setores económicos que não sobrevivem sem a borla fiscal, o resgate público ou o contrato blindado com o erário público.

Está na hora de exigir ao topo o mesmo nível de transparência, justificação e rigor moral que historicamente se cobra à base da pirâmide social.

RiseUP Portugal 

THE BIBI FILES — Documentário Completo em Português

O documentário The Bibi Files, cuja exibição foi bloqueada em Israel, nasceu de uma fuga de informação sem precedentes que abalou os alicerces políticos do país.

Tudo começou quando um intermediário, cuja identidade permanece desconhecida, contactou jornalistas e realizadores através da aplicação Signal, alegando ter na sua posse gravações confidenciais dos interrogatórios policiais de Benjamin Netanyahu, da sua família e de várias figuras centrais dos processos de corrupção que envolvem o primeiro-ministro israelita. O material, enviado de forma encriptada e impossível de rastrear, revelou-se autêntico. O que continha era explosivo: dezenas de horas de interrogatórios e depoimentos oficiais provenientes de uma fuga inédita de informação do sistema judicial israelita.

Desde o início, Netanyahu e a sua equipa jurídica procuraram impedir que o documentário visse a luz do dia. Houve ameaças judiciais, tentativas de bloqueio da distribuição e forte pressão sobre produtores, jornalistas e plataformas de streaming. Parte da equipa acabou por prosseguir o trabalho fora de Israel, onde o filme pôde ser concluído e exibido.


O resultado é uma das obras documentais mais controversas e politicamente sensíveis da história recente de Israel. 

Baseado em gravações reais e inéditas, The Bibi Files acompanha os bastidores de uma das mais longas investigações de corrupção alguma vez conduzidas no país e oferece um raro olhar sobre os mecanismos do poder, as lealdades quebradas e as fissuras que se abriram no círculo mais próximo de Netanyahu.

As imagens, gravadas entre 2016 e 2018, mostram Benjamin Netanyahu, a esposa Sara, o filho Yair e vários aliados próximos a serem interrogados pela polícia em processos relacionados com suspeitas de suborno, fraude e abuso de confiança. O material chegou aos jornalistas através desse canal clandestino e acabou por constituir a espinha dorsal do documentário.

Entre os interrogados encontram-se algumas das figuras mais influentes da sociedade israelita: magnatas dos meios de comunicação, empresários de relevo, produtores de cinema e proprietários de grandes grupos económicos. É precisamente nas salas de interrogatório, despidas de qualquer encenação, que o documentário atinge os seus momentos mais impactantes. Confrontados com provas documentais, presentes de elevado valor e alegadas trocas de favores, vários dos envolvidos acabam por confirmar encontros, conversas e benefícios concedidos ao círculo de Netanyahu.

Entre as revelações mais marcantes surgem os luxuosos presentes recebidos pelo casal Netanyahu, incluindo charutos, champanhe, jóias e estadias em hotéis de luxo, alegadamente oferecidos em troca de acesso privilegiado e influência política. O documentário aborda igualmente as negociações entre Netanyahu e proprietários de órgãos de comunicação social, onde alegadamente foram discutidas alterações legislativas e regulatórias em troca de cobertura mediática favorável. Estes episódios estão no centro dos chamados Casos 1000, 2000 e 4000, que sustentam as acusações formais de corrupção apresentadas contra o primeiro-ministro.

O filme revela também aspectos do comportamento dos próprios protagonistas durante os interrogatórios. Netanyahu surge frequentemente cauteloso e evasivo, recorrendo repetidamente a respostas como "não me lembro" ou "não sei" perante questões concretas. Sara Netanyahu aparece em vários momentos visivelmente irritada, acusando os investigadores de parcialidade. Já Yair Netanyahu adopta uma postura combativa, alegando a existência de uma conspiração política e mediática contra o pai.

Embora a divulgação destas gravações seja ilegal em Israel, o documentário rapidamente ultrapassou fronteiras. As tentativas de impedir a sua exibição acabaram por aumentar a curiosidade pública e o interesse internacional. O filme adquiriu um estatuto quase mítico, tornando-se um dos documentos audiovisuais mais discutidos da política israelita contemporânea.

Mas The Bibi Files não é apenas um documentário sobre corrupção. É também um retrato do funcionamento do poder, da influência das elites políticas e económicas e da fragilidade das instituições quando confrontadas com líderes que concentram uma influência extraordinária durante décadas.

Ao longo das suas duas horas de duração, o filme desmonta a imagem do líder incontestável e apresenta um Netanyahu pressionado pelas investigações, confrontado por testemunhos de antigos aliados e obrigado a responder a um conjunto de acusações que continuam a marcar profundamente a vida política israelita.

Mais do que uma investigação criminal filmada, The Bibi Files é um documento sobre poder, lealdade, influência e responsabilidade política. Independentemente da posição de cada espectador sobre Netanyahu, o filme oferece um olhar raro sobre os bastidores de um dos processos mais importantes e controversos da história recente de Israel.
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The Bibi Files - (legendas PT-PT)
https://drive.google.com/.../1lu32mTivyces8xASwddtPxicpj.../

Publicado e legendado por Tozé Manuel
https://www.facebook.com/share/1aaswB8zji/

Melhor negócio do que a saúde? Só o do armamento.

Em 18 de Abril de 2007, Isabel Vaz deixou uma das frases mais sinceras alguma vez proferidas por uma figura de topo da saúde privada portuguesa:

"Melhor negócio do que a saúde? Só o do armamento."

A frase tem uma característica rara: quanto mais tempo passa, mais difícil se torna discordar dela.

Não estamos a falar de uma pessoa crítica ao sector. Não estamos a falar de alguém que observa a saúde privada à distância. Estamos a falar da mulher que lidera há décadas um dos maiores grupos privados de saúde do país e que, em 2026, recebeu a Medalha de Ouro do Ministério da Saúde pelos serviços prestados ao sector.

Talvez por isso valha a pena escutá-la.

Durante anos, os portugueses ouviram que a saúde privada prospera graças à eficiência, à inovação, à gestão profissional e à concorrência. Tudo isso pode ser verdade. O que raramente entra na conversa é o papel que o dinheiro público desempenha neste modelo.


Quando se fala dos grandes grupos privados de saúde, fala-se dos hospitais, das clínicas, da tecnologia, da rapidez das consultas e dos resultados financeiros. Fala-se menos das convenções, da ADSE, dos contratos públicos, das parcerias público-privadas e de todas as formas através das quais o Estado transfere recursos para o sector.

Em suma, fala-se muito do mercado e pouco do contribuinte. E, no entanto, o contribuinte está presente em praticamente todas as etapas da história.


Os portugueses financiam o SNS através dos seus impostos. Muitos pagam ainda seguros de saúde para terem acesso a uma alternativa ao sistema que já ajudaram a financiar. E quando recorrem a essa alternativa, muitas das vezes voltam a pagar consultas, exames, tratamentos, franquias ou co- pagamentos.

É um modelo admirável.

O cidadão financia o sistema público, financia a alternativa ao sistema público e, no fim, financia novamente a utilização dessa alternativa.

Entretanto, os grupos privados crescem, expandem-se, empregam milhares de profissionais e apresentam resultados que fariam inveja à maioria dos sectores da economia.

E ainda bem.

Ninguém questiona a importância dos médicos, enfermeiros, técnicos, auxiliares e restantes profissionais que garantem diariamente o funcionamento destas unidades. Prestam um serviço essencial e merecem reconhecimento por isso.

A questão é outra.

Quando ouvimos falar dos lucros da saúde privada, porque quase nunca ouvimos falar da enorme quantidade de dinheiro público que ajuda a alimentar esse negócio?

Porque razão se fala tanto das virtudes do mercado e tão pouco da relação profunda que o sector mantém com o Estado?

Talvez porque certas histórias funcionem melhor quando são contadas apenas pela metade.

Curiosamente, a própria Isabel Vaz continua a defender mecanismos semelhantes aos das PPP e a criticar a ausência de controlo sobre os milhares de milhões de euros que o Estado injecta anualmente no sistema de saúde.

Talvez porque conhece o sistema demasiado bem.

Talvez porque compreende melhor do que ninguém, onde termina o público e onde começa o privado.

Ou talvez porque, passados quase vinte anos, aquela frase continue a soar menos como uma opinião e mais como uma descrição.

"Melhor negócio do que a saúde? Só o do armamento."

A entrevista existe e a frase foi realmente dita. Não é preciso acreditar em interpretações, comentários ou opiniões de terceiros.

Ouçam a própria Isabel Vaz.
https://youtu.be/3DNXTqit6Zk?si=Z85oGanEy2dG9_7Z 

Carlos Moedas, a Unbabel e 13,3 milhões de euros

A Unbabel recebeu 13,3 milhões de euros do PRR e acabou insolvente. Se a história terminasse aqui já seria suficientemente interessante. Mas Portugal raramente desperdiça uma boa oportunidade para tornar uma história absurda ainda mais absurda.

Não estamos a falar de uma empresa qualquer. A Unbabel foi apresentada como uma das grandes promessas da economia portuguesa. Carlos Moedas elogiou-a repetidamente e a empresa tornou-se uma das parceiras fundadoras da Unicorn Factory Lisboa, o projecto criado para transformar Lisboa num centro europeu de inovação, produzir as futuras estrelas do empreendedorismo nacional e atrair as chamadas empresas unicórnio, startups avaliadas em mais de mil milhões de dólares.

A ideia era simples: pegar em dinheiro público, misturá-lo com palavras como "inovação", "disrupção", "ecossistema", "inteligência artificial" e "empreendedorismo" e esperar que aparecessem unicórnios. No caso da Unbabel apareceu uma insolvência.


Ao todo, estava previsto receber um financiamento de 14,8 milhões de euros, sendo que recebeu 89,6% deste, ou seja, 13,3 milhões da bazuca europeia. A confiança era tanta que chegou a liderar um consórcio de Inteligência Artificial financiado pelo PRR com 75 milhões de euros. O curioso é que nada disto aconteceu apesar do risco. Aconteceu sabendo-se perfeitamente que o risco existia. As estatísticas sobre startups são conhecidas há décadas. 

Os dados do Eurostat mostram que cerca de metade desaparece nos primeiros cinco anos de vida. Estudos da Harvard Business School apontam para taxas de insucesso ainda maiores quando se analisa o retorno esperado pelos investidores. Os investidores sabem disso. Os gestores sabem disso. Os governos também.

Diziam que tudo corria maravilhosamente bem até deixar de correr.

Em Agosto de 2025, a empresa foi vendida à norte-americana TransPerfect. Na altura falou-se de crescimento, expansão e aumento de escala. Vasco Pedro, cofundador e CEO da Unbabel, garantiu que a operação permitiria aumentar significativamente a dimensão da empresa. Um mês depois começaram a surgir notícias bastante menos optimistas. Segundo várias informações divulgadas na altura, a venda foi realizada por um valor suficientemente baixo para provocar perdas totais em alguns investidores. Aquilo que tinha sido apresentado como um passo natural na evolução da empresa começou rapidamente a parecer uma operação de recurso.

Em Dezembro de 2025, um dos investidores, o fundo espanhol Buenavista Equity Partners, avançou para tribunal com uma acção de 12,75 milhões de euros relacionada com a venda. Em Março deste ano, o IAPMEI começou a analisar os projectos financiados pelo PRR para verificar se os compromissos assumidos tinham sido cumpridos. Pouco depois chegou a sentença de declaração de insolvência.

Sem actividade relevante. Sem activos. Sem dinheiro.

Treze milhões e trezentos mil euros depois.

O mais interessante é que esta história surge exactamente na mesma altura em que o país continua obcecado com prestações sociais de algumas centenas de euros. Discutem-se alegadas fraudes, exigem-se fiscalizações, inventam-se novos mecanismos de controlo e repete-se diariamente a necessidade de proteger o dinheiro dos contribuintes.

Mas quando uma empresa recebe 13,3 milhões de euros dos contribuintes, é promovida durante anos como um exemplo de sucesso, acaba vendida por um valor que deixa investidores a arder, gera processos judiciais, motiva investigações e termina insolvente, a indignação desaparece com uma rapidez impressionante. Quando corre bem, os ganhos ficam no sector privado. Quando corre mal, a factura fica espalhada por milhões de contribuintes que nunca tiveram direito a participar nos lucros, apenas no risco.

Pelos vistos, a subsidiodependência só é um problema quando o subsídio é pequeno.

Quando o cheque tem oito algarismos chama-se visão estratégica. Quando corre mal chama-se empreendedorismo. E quando desaparece o dinheiro dos contribuintes chama-se inovação.

Durão Barroso em 2002

Em 2002, Durão Barroso explicou aos portugueses que «a liberalização do preço dos combustíveis até final do ano teria como efeito previsível uma descida dos preços» e acrescentou: «A concorrência normalmente funciona a favor do consumidor.» É uma frase muito bem protegida. Tem um «previsível» e um «normalmente», que são uma espécie de seguro contra a realidade. Se os preços não baixassem, a descida tinha sido apenas previsível. Se a concorrência não favorecesse o consumidor, devia ser um daqueles dias em que funciona anormalmente. Acontece. Às vezes durante vinte e dois anos seguidos.

A liberalização entrou em vigor em Janeiro de 2004 e os combustíveis deixaram de estar sujeitos ao regime de preços máximos. No final desse mesmo ano, a gasolina tinha subido 10% e o gasóleo 25%. 

Talvez tenha havido apenas um problema de comunicação: o Governo dizia que ia libertar os preços para eles descerem, mas os preços ouviram apenas a parte em que iam ser libertados e começaram imediatamente a explorar a nova autonomia.

Entretanto, ficámos esta semana a saber que a Galp teve lucros de 812 milhões de euros no primeiro semestre de 2026, mais 44% do que no mesmo período do ano anterior. A margem de refinação passou de 5,9 para 15,8 dólares por barril e o resultado operacional da área comercial aumentou 21%, para 197 milhões de euros. 

A administração propõe agora aumentar o dividendo. Portanto, a concorrência está efectivamente a funcionar. Resta saber a favor de que consumidor.

Se Durão Barroso estava a falar do automobilista que põe vinte euros e recebe combustível suficiente para deslocar o ponteiro com alguma timidez, a previsão teve alguns problemas. Se estava a falar do consumidor de dividendos, foi de uma precisão impressionante. Talvez o erro tenha sido nosso. Ouvimos «a favor do consumidor» e julgámos que consumidor era quem comprava gasolina. Nestas reformas, a frase costuma ser dirigida a toda a gente, mas o benefício tem lista de convidados.

Os 5 maiores Bancos ganham 562 mil euros por hora

Há negócios extraordinários. Depois há a banca. Nos primeiros seis meses do ano, os cinco maiores bancos a operar em Portugal lucraram 2,4 mil milhões de euros. Parece um número impressionante, mas continua demasiado grande para ser compreendido. Convém traduzi-lo: 562 mil euros por hora. Quase 9.400 euros por minuto. Cerca de 2.350 euros a cada 15 segundos. Se preferirem uma unidade de medida mais portuguesa, enquanto um cliente espera pela sua vez na agência durante quinze minutos, os bancos acabam de ganhar cerca de 140 mil euros.


É difícil não admirar um modelo de negócio destes. Quanto mais caras ficam as casas, mais crédito é concedido. Quanto mais crédito é concedido, mais juros entram. Quando os juros começam a descer, aumentam as comissões. Se as comissões não chegarem, inventa-se uma nova. É um sistema com uma qualidade rara: aconteça o que acontecer, há sempre uma maneira de o cliente financiar o bom desempenho do banco.

Depois lemos os relatórios e descobrimos que as receitas de comissões continuam a crescer. O BCP aumentou-as 5%. O BPI 8%. A Caixa também arrecadou mais milhões. É uma evolução notável. Há empresas que vivem de vender produtos. A banca descobriu que é muito mais rentável vender a experiência de ter uma conta bancária.


Entretanto, continua a dizer-se às famílias que é preciso contenção, prudência e responsabilidade financeira. Aos bancos ninguém pede contenção. Pede-se apenas que continuem a apresentar lucros robustos. Quando uma família perde 200 euros por mês, chama-se vida. Quando um banco deixa de ganhar 200 milhões, chama-se ameaça à estabilidade financeira. 

É uma definição de estabilidade muito interessante: consiste em garantir que o cliente aguenta tudo e o banco não aguenta nada.

No fundo, a banca portuguesa conseguiu um feito extraordinário. Convenceu-nos de que guardar o nosso dinheiro é um favor que nos faz. E, como todos os favores, cobra-se. Depois cobra-se por transferir o dinheiro. Cobra-se por levantar o dinheiro. Cobra-se por manter o dinheiro. Falta apenas cobrar uma comissão por olhar para o saldo. Dando tempo ao tempo, não excluiria essa possibilidade. Afinal, quando um sector consegue ganhar 562 mil euros por hora, é sinal de que ainda encontrou poucas coisas gratuitas. 

Governo prepara-se para abrir caminho à privatização da Segurança Social

O relatório chama-se Por um Sistema Sustentável, Adequado e Justo – Um Contrato entre Gerações. 

O título foi evidentemente escolhido para não assustar ninguém. Tem “sustentável”, “justo”, “gerações” e “contrato”, palavras que fazem pensar numa sociedade responsável, solidária e preocupada com os filhos e os netos. Depois abre-se as informações conhecidas do relatório e descobre-se que os filhos e os netos devem começar a poupar para a reforma praticamente assim que deixam a maternidade. É um contrato entre gerações, de facto, mas entretanto apareceu um gestor de fundos à mesa de jantar.

Convém perceber como chegámos aqui. O grupo de trabalho foi criado pelo Governo e recebeu logo como missão estudar o desenvolvimento dos regimes complementares, colectivos e individuais, e a expansão da capitalização. Portanto, o relatório não tropeçou por acaso nos fundos de pensões depois de meses de investigação. Já saiu de casa com a morada. O Governo pediu-lhe que estudasse determinados caminhos e, após longa reflexão, o grupo descobriu que esses caminhos eram extremamente interessantes. É uma coincidência científica bonita.


Rosário Palma Ramalho garante que não está prevista uma reforma estrutural da Segurança Social nesta legislatura. Convém acreditar no que efectivamente foi dito e não inventar um desmantelamento para amanhã de manhã. Ninguém propõe acabar com a Segurança Social pública. Seria, aliás, uma maneira bastante grosseira de fazer as coisas. A proposta é muito mais sofisticada: mantém-se a Segurança Social pública e vai-se explicando ao trabalhador que seria prudente não confiar demasiado nela. 

A Segurança Social continua a ser uma garantia colectiva; só convém ter outra garantia, caso a garantia garantida não garanta o suficiente.


Antes das soluções, porém, é necessário estabelecer que temos um problema. E aqui o relatório consegue uma proeza contabilística interessante. O sistema previdencial da Segurança Social tem apresentado excedentes, mas o grupo considera “ilusório” olhar para esses números separadamente da Caixa Geral de Aposentações. Como a CGA está fechada a novos subscritores desde 2006, enquanto continua naturalmente a pagar pensões, o relatório entende que os dois sistemas devem ser analisados em conjunto. Feitas as contas dessa forma, o saldo de 2025 passa para um défice próximo dos 1.944 milhões de euros.

Pode haver argumentos técnicos perfeitamente respeitáveis para esta análise conjunta. O que tem graça é a facilidade com que um excedente se transforma numa “ilusão” quando se muda o perímetro da conta. A Segurança Social tem excedente, mas não devemos olhar para aquele excedente daquela maneira porque, se juntarmos outra coisa que tem défice, afinal temos défice. É um método com aplicações extraordinárias. Eu também tenho dinheiro na conta à ordem, mas, se lhe juntar o crédito à habitação, descubro que afinal estou falido. Não significa que a dívida não exista; significa apenas que talvez seja excessivo chamar “ilusórios” aos 200 euros que continuam efectivamente na conta.

Estabelecida a atmosfera de emergência, começam a aparecer as soluções, e é então que o relatório abandona a contabilidade e entra numa espécie de literatura fantástica sobre a capacidade de poupança dos portugueses.

Uma das propostas são os Planos de Pensões Profissionais de Adesão Automática. O trabalhador entra por defeito, embora possa sair, e o modelo prevê contribuições do trabalhador, do empregador e do Estado. A ideia é criar uma segunda camada de protecção para a reforma. Tudo muito razoável até nos lembrarmos de um pequeno pormenor: há centenas de milhares de trabalhadores que não conseguem constituir poupança porque, depois da renda ou prestação da casa, alimentação, energia, transportes e filhos, acontece uma coisa muito desagradável ao salário: acaba.

A solução encontrada é extraordinária na sua simplicidade. Se as pessoas não conseguem poupar, criemos um mecanismo para que poupem. Durante anos pensámos que a falta de poupança resultava da falta de dinheiro disponível. Afinal faltava sobretudo uma arquitectura financeira adequada. O trabalhador poderá naturalmente sair do sistema. A liberdade fica salvaguardada: pode escolher entre retirar dinheiro do salário agora ou descobrir aos 70 anos que devia tê-lo retirado. É o género de liberdade que floresce particularmente bem quando todas as alternativas são más.

E depois temos a palavra “complementar”. Convém guardá-la porque vai fazer muito trabalho nos próximos anos. Ninguém quer substituir a Segurança Social; querem apenas “complementá-la”. É uma palavra impecável. Um complemento é uma coisa adicional, acessória, quase simpática. O problema começa quando se passa a dizer às pessoas que devem ter esse complemento porque a pensão pública poderá não proporcionar rendimento suficiente. Nesse momento, o complemento continua a chamar-se complemento, mas já desempenha uma função curiosamente parecida com a de uma necessidade. Um colete salva-vidas também é complementar ao barco. Sobretudo enquanto o barco não mete água.

Mas talvez estejamos a começar demasiado tarde. O relatório tem uma ideia melhor: começar nas crianças.

Chama-se “Grão a Grão” e prevê contas individuais de poupança para a reforma destinadas a crianças e jovens, alimentadas por uma pequena contribuição pública e por entregas voluntárias da família. Admite-se até que parte do abono de família possa ser canalizada para essa poupança. O abono existe para ajudar uma família com as despesas de criar uma criança hoje, mas o pensamento estratégico recomenda que talvez uma parte possa ser guardada para quando essa criança tiver 70 anos. Entre comprar umas sapatilhas em 2026 e garantir uma taxa de substituição aceitável em 2085, finalmente alguém teve coragem de estabelecer prioridades.

A criança poderá crescer acompanhando a evolução da sua reforma. Aos seis anos aprende a ler, aos oito aprende a multiplicar e aos dez já pode perguntar ao pai se a carteira está suficientemente diversificada. Quando os avós lhe derem vinte euros pelo aniversário, em vez daquela frivolidade decadente de comprar um brinquedo, poderá reforçar a previdência. É assim que se constrói uma infância financeiramente responsável: menos Playmobil, mais capitalização composta.

O nome “Grão a Grão” também é feliz. Grão a grão enche a galinha o papo. Neste caso, convém apenas que a galinha tenha emprego estável, salários decentes, pais com capacidade para contribuir, mercados financeiros razoavelmente cooperantes durante meio século e a delicadeza de não ter despesas imprevistas pelo caminho.

Para os rendimentos mais baixos há uma ideia ainda mais requintada: o Save-as-you-Buy, poupar enquanto se compra. Pequenos montantes associados às compras, arredondamentos, benefícios ou mecanismos semelhantes poderiam alimentar uma poupança para a reforma. É difícil imaginar uma solução mais elegante para quem não consegue poupar: fazer depender a poupança daquilo que consegue gastar.

O trabalhador vai ao supermercado porque precisa de comer, paga preços que lhe deixam cada vez menos dinheiro ao fim do mês e, finalmente, alguém olha para aquela situação e vê uma oportunidade financeira. Nós, leigos, víamos uma família a gastar 100 euros em comida. Um especialista vê uma carteira previdencial a comprar bacalhau.

É uma evolução extraordinária do Estado Social. Em vez de perguntarmos por que razão alguém que trabalha não consegue poupar, perguntamos se é possível retirar alguns cêntimos ao acto de comprar aquilo de que precisa para sobreviver. Um dia chegaremos ao modelo perfeito: o cidadão não terá dinheiro para a reforma, mas cada pacote de arroz comprado aproximá-lo-á alguns cêntimos da independência financeira.

E quando chegamos aos reformados, a criatividade não diminui. O relatório contempla mecanismos de equity release, através dos quais pessoas idosas podem transformar património imobiliário em rendimento. O exemplo apresentado por Jorge Bravo é perfeitamente racional: alguém pode receber uma pensão mínima e viver numa casa que vale meio milhão de euros. Nesse caso, existe riqueza patrimonial que poderia ser utilizada para complementar o rendimento, mantendo salvaguardado o direito à habitação.

Financeiramente percebe-se. Politicamente também. Durante décadas disseram às pessoas que comprar casa era uma forma de garantir segurança na velhice. Muitas fizeram exactamente isso: trabalharam, pagaram juros durante trinta ou quarenta anos e chegaram à reforma com uma casa paga. Agora descobrimos que essa casa pode servir para compensar uma pensão insuficiente. Primeiro trabalhou para pagar a casa. Depois usa a casa para pagar a reforma. É difícil acusar o sistema de desperdício: aproveita-se tudo.

E repare-se na mudança de linguagem. Já não temos necessariamente um pensionista com rendimento insuficiente. Temos um cidadão com património imobiliário subaproveitado. O pobre não deixou de ter pouco dinheiro, mas ganhou uma extraordinária valorização terminológica. Pode continuar sem conseguir pagar determinadas despesas, mas pelo menos agora sabe que é ilíquido.

O relatório sugere ainda Certificados de Aforro-Reforma e Obrigações do Tesouro-Reforma. Ou seja, perante dúvidas sobre a capacidade futura do Estado para assegurar pensões suficientemente adequadas, uma das soluções é o cidadão emprestar dinheiro ao Estado para assegurar a própria reforma. Há nisto uma circularidade quase artística. Descontamos para o Estado, poupamos emprestando ao Estado e esperamos que, quando envelhecermos, o Estado tenha dinheiro para pagar a pensão e devolver aquilo que lhe emprestámos para nos protegermos da possibilidade de a pensão paga pelo Estado não chegar. Se isto não é um contrato entre gerações, é pelo menos uma relação muito séria.

Também se propõe maior flexibilidade na passagem para a reforma, acabando com a actual lógica rígida da idade normal, revendo penalizações e permitindo combinações entre trabalho e pensão. Não, o relatório não diz que os portugueses devem trabalhar até morrer. Isso seria uma caricatura fácil e, sobretudo, desnecessária. Basta olhar para a palavra escolhida: “flexibilidade”. Há poucas palavras que tenham feito tanto pela transferência de problemas colectivos para decisões individuais. Um professor de 68 anos pode querer continuar a trabalhar algumas horas e sentir-se perfeitamente capaz. Um trabalhador da construção civil de 68 anos pode ter uma relação ligeiramente diferente com o conceito. Para uma folha de Excel são ambos trabalhadores com 68 anos. Para uma coluna vertebral, infelizmente, existem nuances.

A questão interessante é perceber qual a filosofia que começa a entrar pela porta dos fundos enquanto toda a gente garante que a porta da frente continua pública. E essa filosofia é bastante clara: uma parcela crescente da segurança económica na velhice deve resultar da capacidade individual de acumular património e poupança ao longo da vida. Planos profissionais, contas individuais, produtos financeiros, poupança através do consumo, casa própria transformada em rendimento. O sistema colectivo permanece, mas à volta dele vai crescendo uma infraestrutura destinada a proteger cada pessoa da possibilidade de o sistema colectivo não conseguir protegê-la suficientemente. Só há um pequeno problema, desses que costumam estragar modelos impecáveis: as pessoas não chegam à velhice nas mesmas condições.

Quem ganha três mil euros pode poupar. Quem ganha mil provavelmente tem outras prioridades extravagantes, como comer e morar. Quem tem pais com dinheiro pode receber contribuições na conta “Grão a Grão”. Quem não tem, recebe o grão inicial e votos de uma excelente colheita. Quem comprou uma casa pode monetizá-la. Quem passou quarenta anos a pagar rendas pode monetizar, talvez, a experiência. Quem tem uma boa empresa poderá beneficiar de um excelente plano profissional. Quem viveu entre contratos precários poderá beneficiar daquela maravilhosa instituição que acompanha os pobres desde sempre: o conselho para terem feito escolhas melhores.

É por isso que a discussão sobre privatização pode até atrapalhar a crítica. Não é necessário privatizar formalmente a Segurança Social. Basta privatizar progressivamente o risco de ter uma pensão insuficiente.

O Estado continuará a dizer: a pensão pública existe. E existe. Só que, se não chegar, havia o plano profissional. Se não aderiu, podia ter aderido. Havia a conta individual. Podia ter poupado. Havia o Save-as-you-Buy. Podia ter arredondado as compras. Havia os Certificados Reforma. Podia ter investido. Tinha uma casa? Podia monetizá-la. Não tinha casa? Bem, nesse caso talvez devesse ter pensado nisso antes de passar quarenta anos com salários que não permitiam comprá-la.

E é aqui que se opera a mudança realmente importante. O fracasso deixa progressivamente de pertencer ao sistema e passa a pertencer à biografia. Se a pensão não chega, já não será apenas uma questão sobre salários, contribuições, produtividade, distribuição da riqueza ou escolhas políticas. Será também uma questão sobre aquilo que cada pessoa poupou, investiu, comprou, acumulou e decidiu fazer ao longo da vida. O risco social ganha currículo individual.

É uma forma muito elegante de reduzir a responsabilidade do Estado sem precisar de reduzir o Estado num decreto. Por isso, talvez o título esteja certo. É mesmo Um Contrato entre Gerações. Só não é exactamente o contrato que conhecíamos.

O anterior dizia que cada geração contribuía para proteger a seguinte e era protegida pela anterior, num sistema assente na solidariedade colectiva. Este mantém essa promessa, mas acrescenta algumas cláusulas: tenha um plano de pensões, abra uma conta aos seus filhos, poupe quando fizer compras, compre produtos financeiros, acumule património, transforme a casa em rendimento e mantenha-se flexível perante a possibilidade de trabalhar mais tempo.

Não estão a acabar com a Segurança Social.Isso seria demasiado evidente. Estão apenas a ensinar-nos, grão a grão, a precisar cada vez menos dela. E, sobretudo, a assumir cada vez mais a culpa se um dia precisarmos dela e ela não chegar.